sábado, abril 21, 2012

Esmirna: a Igreja Confessante e Mártir (subsídio para lições bíblicas)



A cidade de Esmirna gozava de grande fama, assim como Éfeso, devido a ser um centro de ciência e medicina, era conhecida pelo título de “Flor da Ásia” e gozava de boa prosperidade, pois também era um grande centro comercial, que abrigava uma grande colônia judaica e foi dali que surgiu o célebre pai da igreja Policarpo, discípulo do apóstolo João. Todavia, ao contrário da beleza arquitetônica da cidade, a igreja cristã localizada ali enfrentava os mais variados tipos de problemas.

Jesus fala para a igreja: "eu sei as tuas obras, e tribulação, e pobreza (mas tu és rico), e a blasfêmia dos que se dizem judeus e não o são, mas são sinagoga de Satanás" (Ap 2: 9), Jesus revela ter conhecimento das boas obras da igreja, assim conhecia a suas necessidades. Dentro disso é importante observar: Esmirna era uma igreja pobre, simples, maltratada, passando por tribulações e angústia, entre os motivos por causa de alguns judeus vindos de Satanás, pois estavam servindo ao seu propósito e não ao de Cristo.


“Mas tu és rico...”

Então, nessa hora, caso Jesus fosse formado na homilética da teologia da prosperidade, muito bem poderia ter dito: "Esmirna, não aceite isso, estou disposto a tirá-la desse sofrimento, decrete a mim que eu lhe tirarei dessa enrascada, lembrem-se que são príncipes!". Todavia, Jesus não se portou como os modernos pregadores da atualidade, pelo contrário, “Mas tu és rico”. Ela não possuía nada, mas tinha tudo! O que Jesus diz a essa igreja e a nós hoje é claro: Não precisamos ter um excesso de bens materiais para sermos vitoriosos e termos sucesso. Nosso lugar é no céu e não aqui. Se atentarmos somente para essa vida, seremos os mais miseráveis de todos os homens. Na igreja atual há certo inverso: há muitos ricos, mas que são pobres. Pobres de Cristo, infrutíferos espiritualmente, sem amor a Deus e a sua Palavra. Possuem o carro do mês e egos inflados, mas o poder de Deus e o enchimento do Espiríto estão longe deles; nessa hora que todos esses tipos de pessoas possam escutar a voz de Jesus, que nos dá uma aparente contradição de termos, mas que ilumina grandemente o nosso caminho.
a tribulação parecia só mais aumentar, o sol escurecer, a luz apagar, o que seria daquela sofredora igreja? Jesus diz algo surpreendente:

 "Nada temas das coisas que hás de padecer. Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados; e tereis uma tribulação de dez dias. Sê fiel até a morte..." ( Ap 2:10).

 Há certo paralelo com esse texto e aquele que encontramos em Lucas 22:30-32, onde Jesus afirma que Satanás estava disposto a cirandá-lo como trigo. O objetivo de Satanás talvez não fosse igual para a igreja de Esmirna, todavia bastante semelhante. Satanás queria que os pecados de Pedro ficassem à amostra, já com a igreja de Esmirna o que ele queria é que ela cometesse um pecado brutal: negasse o nome do Senhor (o mesmo que Pedro acabou cometendo), então Jesus diz: a prisão os aguardava, a maior provação até então haveria de vir, era necessário ser fiel até a morte. Jesus conclama Esmirna a perseverar em seu testemunho. Hoje em dia o conceito de martírio não abrange a gama de significados que refletia originalmente na língua grega, de onde se origina. O significado mais básico é dar testemunho (marturew), sendo que o mártir não seria necessariamente alguém que morre por uma causa, mas sim alguém que dá seu testemunho pessoal, sendo usado também no testemunho diante de um tribunal. Com o aumento das perseguições dos crentes pelo mundo romano, muito permaneciam dando testemunho de Cristo mesmo diante da morte. Com o passar do tempo, o termo mártir passou a estar associado com a “morte por uma causa”. Muitos genuinamente permaneceram fiéis até a morte. 50 anos depois que o livro de apocalipse foi escrito, Policarpo, discípulo de João bispo em Esmirna, experimentou a morte por martírio, aos 86 anos de idade. As últimas palavras de Policarpo, quando este estava sendo pressionado a renegar sua fé em Cristo, devem ecoar em nossos corações: “Eu tenho servido Cristo por 86 anos e ele nunca me fez nada de mal. Como posso blasfemar contra meu Rei que me salvou? Eu sou um crente!” e assim, deu com o sangue um dos maiores testemunhos de Cristo. O medo que assolava Esmirna é o mesmo de muitos Crentes atuais: realmente conseguir pagar o preço para poder seguir a Cristo, ainda que esse preço seja tão caro que tenhamos que suportar a tribulação, a miséria e a morte. Mas a tribulação não duraria muito tempo. Teria um prazo de dez dias. Era necessário olhar para Cristo para poder passar esse difícil período. Essa experiência pode ser aplicada a cada um de nós a qualquer momento.

Nessa hora de tribulação, Cristo certamente não nos deixará sozinhos, pois Ele mesmo dá um belíssimo complemento: “Sê fiel até a morte, e dar-te-ei a coroa da vida", o que exatamente constituía-se essa coroa? Seria esta uma coroa literal? É possível, mas ao que tudo indica pelo próprio contexto era o próprio Cristo, o Galardão, a herança eterna dos crentes fiéis, que não amaram a sua própria vida. No vale da sombra da morte, que possamos lembrar-nos disso: Olhemos para Jesus, e assim como Paulo, regozijemos em ter a honra de sofrer por Cristo, pois o que passamos aqui, comparado ao que vamos ter, é leve e momentâneo. Sim, Satanás fará de tudo para nos pegar, para nos peneirar como trigo, ele nos quer, mas lembremos: Deus também nos quer, é necessário ter vontade de perseverar, pois esse é o desejo de Deus e também o seu desejo é que Ele nos tenha! Que continuemos com firmeza a caminhada da vida cristã, ainda que seja difícil e repleta de dificuldades, porém jamais devemos negar o nome de Nosso Senhor. Tendo em mente constantemente essas palavras: "quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas: O que vencer não receberá o dano da segunda morte" (Ap 2:11).

Soli Deo gloria

sexta-feira, abril 13, 2012

Éfeso, a Igreja do Amor Esquecido (subsídio para as Lições Bíblicas).

Em 2007, publiquei um comentário devocional sobre a carta à igreja de Éfeso, contida no Apocalipse do Apóstolo João. Esse comentário, que também continha elementos contextuais da igreja na ásia menor, foi revisto a adaptado como subsídio das lições bíblicas deste trimestre. Espero que este subsídio sirva de apoio aos irmãos que militam na Escola Dominical em favor da sã doutrina.


Biblioteca de Celso, nas ruínas da antiga Éfeso.

Fica claro no início do livro de Apocalipse que este se dirigia especificamente para as igrejas da Ásia: “João, às sete igrejas que estão na Ásia: Graça e Paz sejam convosco da parte daquele que é, e que era, e que há de vir, e dos sete espíritos que estão diante do seu trono.”(Ap 1:4). Pouco depois, Jesus aparece a João e ordena que ele escreva para as igrejas da Ásia, a começar por Éfeso: “Eu fui arrebatado no Espírito no dia do Senhor, e ouvi detrás de mim uma grande voz, como de trombeta. Que dizia: Eu Sou o Alfa e o ômega, o primeiro e o derradeiro; e o que vês, escreve-o num livro. E envia-o às sete igrejas que estão na Ásia: a Éfeso, e a Esmirna, e a Pérgamo, e a Tiatira, e a Sardes, e a Filadélfia, e a Laodicéia”(Ap 1:10-11).


Da cidade para uma igreja: Éfeso, uma introdução.


A cidade de Éfeso a presença evangelística do Apóstolo Paulo, que solidificou e praticamente fundou a igreja na região, pois lá encontrou pessoas que não haviam sido batizadas nem sabiam que havia o Espírito Santo (At 19: 1-2).  A visita de Paulo causou confusão na cidade, que era marcada por uma grande idolatria à deusa Diana. Os ourives da cidade, influenciados por Demétrio, que estava preocupado com seu emprego, desencadearam uma perseguição ao apóstolo, que só foi parado pela providencial mão de Deus sobre o escrivão da cidade (At 19:35-41). O fruto na cidade de Éfeso foi muito grande, pois milhares de livros esotéricos foram queimados.
A igreja também teve em sua companhia o amado Timóteo, que era como um filho adotivo de Paulo. Além dele, também tiveram o apostolo João, que permaneceu nessa igreja até a sua morte.


A carta de Jesus a Igreja em Éfeso:


Jesus começa elogiando grandemente a igreja em Éfeso: “conheço as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua paciência, e que não podes sofrer os maus; e puseste à prova os que se dizem ser apóstolos, e o não são, e tu os achaste mentirosos. E sofreste, e tens paciência; e trabalhaste pelo meu nome, e não te cansaste” (Ap 2:2).


O elogio de Jesus é importantíssimo para entendermos o contexto daquela igreja. Quando Paulo partiu definitivamente de Éfeso  ele alertou à igreja que se introduziriam falsos profetas que não poupariam o rebanho. O alerta foi em especial aos líderes daquela igreja (At 20: 28-32). Alguns comentaristas sugerem que os falsos obreiros a quem Paulo se refere são certos hereges gnósticos primitivos, o que é possível, mas tal sugestão é apenas especulativa, haja vista que o gnosticismo se torna mais latente na igreja primitiva no final do primeiro século. Mas então, o que aconteceu a Éfeso depois do discurso do Apóstolo? Ao que tudo indica realmente a palavra que Paulo pronunciou se cumpriu. Todavia, ele também sabendo da sua responsabilidade, enviou para a igreja seu filho na fé Timóteo, o que foi uma grande benção para aquela igreja, apesar de logo no inicio o rapaz apresentar timidez e ser novo demais para o pastorado, como Paulo revela na epístola para o jovem, que também fala que ele deveria refutar as falsas doutrinas e ser um exemplo de liderança na igreja. Depois de Timóteo, veio o Apóstolo João, que confirmou Éfeso como um importante centro apostólico.


Levando isso em conta, vemos porque Éfeso foi elogiada por Cristo. Ela havia lutado pelo Seu Nome, ela pôs à prova os que se diziam discípulos e não eram. Éfeso guerreou e permaneceu firme, e não se cansou! Ela foi como um boxeador inabalável, ainda que recebemos diversos golpes do adversário. Ela refutou as heresias e os mestres que a pregavam, mostrando que eles eram falsos apóstolos. Ela fora teologicamente equipada para isso, havia sido treinada por “um time de feras” experientes, “perfeitos”. Não é exagero classificarmos Éfeso como uma igreja completamente ortodoxa!,

“E sofreste...


 A batalha foi grande. A comunidade enfrentou a tribulação e angústia, porém trabalhou e não se cansou, continuaria o trabalhando a serviço de Cristo, pelejaria o quanto fosse necessário.

“Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor...”

Infelizmente há um “porém” em tudo isso. Éfeso havia perdido o seu primeiro amor. Cabe a nós perguntarmos: o que significa o primeiro amor? Os comentaristas não são tão unânimes como se imagina. Alguns afirmam que o primeiro amor se referia ao amor pelas almas perdidas, que não era mais o mesmo dos tempos do apóstolo Paulo, outros afirmam que o primeiro amor se referia à busca por Cristo, que não era mais fervorosa. Essas conclusões são complementares e não necessariamente contraditórias e nos ajudam a entender um pouco mais do contexto histórico daquela igreja. Todavia, falta algo. Muitos comentaristas são sensatos quando afirmam que na verdade o problema de Éfeso é que ela ERA UMA IGREJA EM POSIÇÃO DE BATALHA O TEMPO TODO. As lutas fizeram com que os cristãos efésios se concentrassem tanto em batalhas doutrinárias e em manter uma doutrina que deixaram o seu primeiro amor. A busca por Cristo não era mais zelosa e os cultos haviam se tornado rotineiros. Não somente a busca por Cristo, mas a comunhão com os irmãos, onde se mostraria o amar a Deus e amar ao próximo.


Observando tal quadro, lembramos da primeira carta do apóstolo João provavelmente escrita em Éfeso e destinada as igrejas sobre a sua supervisão,  que diz: “Se alguém diz: eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama seu irmão, a qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? E dele também temos este mandamento: que quem ama a Deus, ame também a seu irmão”(1 Jo 4:20-21). As brigas estavam “esquentando” o ânimo da comunidade com ira e a contenda devia ser grande e já durara certo tempo, talvez foi por isso que o apóstolo Paulo escreveu a Timóteo sobre aquela igreja:” quero pois, que os homens orem em todo lugar, levantando mão santas, sem ira nem contenda.”(1 Tm 2:8). A igreja não podia “sofrer”( que aqui, significa “suportar”) os maus, por isso estavam constantemente desconfiados, o relacionamento cristão estava abalado naquela comunidade. A repreensão de Jesus é clara: “lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei, e tirarei do seu lugar o teu Castiçal, se não te arrependeres”, a igreja precisava voltar a ter aquela comunhão com Cristo e com os irmãos, ela não podia deixar que as lutas doutrinárias tomassem todo o tempo da sua atenção, tirassem a alegria da Salvação, a busca por Cristo e o amor ao próximo. Éfeso acabara se acomodando ao formalismo e o cristianismo regular, porém sem fervor espiritual.

Não podemos nos esquecer, todavia, o que Jesus fala para aquela que era uma das principais igrejas dos tempos bíblicos: “tens, porém, isto: que odeias as obras do nicolaítas, as quais também eu odeio” havia algo em Éfeso que fazia com que Jesus não derramasse sua ira, pelo menos temporariamente, ou então abrandasse o seu Juízo: ela odiava os nicolaítas. As opiniões sobre esse grupo divergem, alguns dizem que eram seguidores de Nicolau, o prosélito de Antioquia, que fora um dos sete diáconos escolhidos em Atos dos Apóstolos. Hoje essa não é a opinião dominante entre os estudiosos, sendo que é de difícil sustentar tal afirmação, haja vista que a Bíblia não faz nenhuma ligação a esse movimento com o diácono que, segundo o relato da Escritura, tinha um bom testemunho diante da congregação e era cheio do Espírito Santo (At . A maioria dos comentaristas  afirmam que eram pessoas que provocavam fornicações e outros pecados no povo de Deus. Seja qual for o caso, os nicolaítas pervertiam a doutrina apostólica e buscavam lançar um grave tropeço na causa do Evangelho.


A igreja em Éfeso: um péssimo exemplo?


É comum ouvirmos hoje em muitas pregações que a igreja está perdendo o seu primeiro amor por Cristo, o que é realmente uma verdade, porém muitas vezes isso se dá por causa da constante iniqüidade e não exatamente por aquilo que aconteceu a Éfeso. Muitos menosprezam essa igreja taxando-a de sem Cristo e sem fervor, uma igreja fria e seca, um péssimo exemplo para o cristianismo. Ainda que haja grande verdade em todas essas afirmações, não seria um equivocado procedimento atentarmos para o próprio elogio que Nosso Senhor dirige a Éfeso. Devemos lembrar-nos de tudo aquilo que Jesus disse sobre ela: a luta que enfrentou, os sofrimentos que passou, a paciência que exercitou, a Palavra que cumpriu. Tudo isso revela que Cristo verdadeiramente amava aquela igreja e jamais deixaria de reconhecer tudo aquilo que Ele fez de bom através dela, porém nosso Senhor falou, por amor a aquela grande comunidade cristã que era necessário se arrepender, voltar aos primeiros anos, lembrar de onde ela tinha caído. O problema aqui não é ela ser uma igreja que refutava as heresias, não, Cristo as elogia e até diz que ela tinha uma coisa importantíssima, ela odiava as obras más, que odiava, não os nicolaítas, mas suas obras diabólicas.


Muitos crentes hoje fazem uma divisão brutal entre ortodoxia e experiência, porém tal diferença não existe. Só teremos uma experiência correta com um pensamento correto, e um pensamento correto acerca de Deus, Salvação, fé, perseverança e Cruz só é possível através das Sagradas Escrituras.


Devemos sim imitar a Éfeso na luta contra as heresias, todavia devemos tomar cuidado,  em especial aqueles que pelejam bastante pela fé: não podemos esquecer de nosso primeiro amor, não podemos deixar de nos relacionar, não podemos deixar de amar aos homens, e acima de tudo a Nosso senhor Jesus Cristo. Devemos ter nossa consciência limpa, tanto para com Deus como para os homens. Sabendo que para com os homens que sempre praticamos o bem para a glória de Cristo. E ainda que não sejamos compreendidos, estejamos livres do sangue de todos, pois nunca deixamos de anunciar todo o conselho de Deus. Para com Deus, vigiemos, e nunca desviemos-nos de nosso primeiro amor para com Ele, lembrando que não estamos sós, pois Ele constantemente nos encoraja dizendo: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida, que está no meio do paraíso de Deus” (Ap 2:7).



                                                                                Soli Deo Gloria.

sábado, março 31, 2012

Os Pregadores da Cruz e os Aproveitadores do Púlpito - Anderson Alan (Conferência Graphe)

Dando prosseguimento a série de pregações da  I Conferência Graphe 2011,  onde o tema abordado foi a cruz de Cristo, o GQL Channel publicou mais um vídeo: a oportuna e necessária pregação de Anderson Alan, que mostra as características de um genuíno proclamador do Evangelho, assim também as características daqueles que proclamam um falso evangelho. Nesses dias de pouco discernimento espiritual e as críticas mais variadas feitas a  homilética pentecostal, a pregação de Alan é um claro e urgente apelo à volta das Sagradas Escrituras como única regra de fé e prática, tanto dos membros quanto do pregador. Vale a pena ver!





Soli Deo Gloria

quinta-feira, março 15, 2012

Até onde vão as suas referências?

Nunca me esqueci de quando li na adolescência, pela primeira vez, um livro de John Stott. Cristianismo Equilibrado, publicado pela CPAD, tinha poucas páginas, quase um livreto. Nele, Stott aborda sobre os problemas envolvendo os que buscam resguardar a tradição teológica eclesiástica e os que se envolvem numa busca constante para o novo. Uma das críticas na qual ele reserva para o último grupo é que estes sempre buscam algo novo por vezes menosprezam o antigo ou então possuem pouquíssimo respeito por ele. Tais tipos de pessoas não respeitam "vaca sagrada" alguma¹. Não há dúvidas que Stott estava absolutamente certo e que sua crítica é válida até os dias de hoje. O surgimento do movimento emergente e suas problemáticas é uma prova que Stott permanece atual e importante para o cenário evangélico mundial. O livro de Stott continua a impactar tantas pessoas hoje quanto me impactou há alguns anos atrás. Todavia, há um problema hoje que talvez deve ser visto com profunda atenção, em especial em círculos reformados atuais.  

O que ocorre hoje com muito mais frequência entre o público jovem e reformado parece ser o oposto do que Stott escreveu². Hoje parece que há tanto respeito e apreço pela tradição teológica que ela parece ser uma "vaca sagrada" na qual o simples fato de questioná-la ou até mesmo atrever-se a refletir sobre ela é o mais profundo sacrilégio. Por vezes os pentecostais são acusados de darem extrema importância a pregadores celebridades, destituídos de base bíblica sólida e que fomentam as mais perversas heresias dentro do povo de Deus. Tal crítica é totalmente correta e necessária (ainda que menospreza vários fatores no que tange ao pentecostalismo e o que é realmente ser pentecostal). Todavia, dar extrema importância a homens piedosos pode ser extremamente danoso e perigoso igualmente. Talvez não haja exemplo mais valioso do que o reformador João Calvino. Por vezes escutamos críticas injustas à pessoa e teologia de João Calvino, assim também como os equívocos são os mais diversos. Porém, quando ouvimos determinadas pessoas falarem de Calvino, a imagem que eles descrevem e que mentalizamos em nossos corações é igual à figura abaixo:

Calvino, como retratado na figura acima, é por vezes visto com um super-herói inigualável.

Nessa figura, vemos Calvino não simplesmente como um herói da fé, mas como alguém dotado de superpoderes prestes a salvar o dia; e por que não, o mundo inteiro. Vemos Calvino como alguém que é a medida de todas as coisas, onde de suas palavras saem profundo manancial espiritual e possuem um peso praticamente plenário-verbal. Suas Institutas devem ser vistas como um verdadeiro apêndice à Bíblia Sagrada, sendo que sua pessoa é quase a quarta pessoa da divindade. Quando citamos seu nome, praticamente saímos do chão. Dentre os nascidos de mulher, não houve tal igual a ele. Aplique isso a todo o restante do calvinismo e o sistema teológico derivado dele. Por certo até onde conhecemos seus escritos, podemos dizer que ele mandaria queimar tal desenho feito a respeito dele, assim também como se sentiria constrangido com os elogios descabidos. A melhor maneira de vermos Calvino mais adequadamente é refletida na Figura abaixo:

Calvino, segundo uma gravura antiga: Estudioso e dedicado à Palavra de Deus.

Aqui, teríamos um quadro bem melhor de Calvino. Um homem erudito, porém extremamente aplicado no conhecimento da Palavra de Deus, focado e concentrado no que realmente importa. Com relação às colocações feitas anteriormente, é importante fazer algumas observações.

Não estou acusando os reformados em geral de idolatria, mas sim de existir em alguns setores uma ênfase exagerada em Calvino e no resto da tradição reformada que chegam a aparentar (grifo meu) ter esse tipo de pensamento, o que gera não um entendimento profundo da teologia reformada, mas apenas clichês calvinistas. Nem tampouco quero menosprezar a figura de João Calvino como um dos maiores teólogos da história da igreja, senão o maior. Seus comentários claros, objetivos e piedosos nos fornecem piedosos insigths que nos orientam na vida cristã e nos aperfeiçoam no relacionamento e serviço com Cristo. Assim também como sua teologia reflete de forma cristalina a verdade da Palavra de Deus; e aí que está o ponto-chave que é necessário esclarecer: Necessitamos expressar de forma clara que a autoridade do homem está em pé apenas quando ele se coloca de acordo com a Palavra de Deus. Cristo é nosso supremo alvo e único objeto de adoração. O apóstolo Paulo, um homem inspirado de forma plenária e verbal por Deus, afirmou: "Pois quem é Paulo, ou quem é Apolo, senão ministros pelo qual crestes, e conforme o Senhor deu a cada um? Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. Pelo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento" e mais adiante afirma: "Segundo a graça que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como se edifica sobre ele. Porque ninguém pode pôr outro Fundamento, além do qual já está posto, o qual é Jesus Cristo" (1 Co 3:5-7/10-11).  Por certo devemos alegrarmos em nossa doutrina e tradição, porém deixando bem claro que ela se deriva da Palavra de Deus.

Talvez não haja melhor orientação no que tange a esse assunto do que a Epístola aos Hebreus: após citar os grande heróis da Fé no capítulo 11, o autor afirma: "Portanto, nós também pois, que estamos rodeados de uma tão grane nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos, com paciência, a carreira que nos está proposta. Olhando Para Jesus, o autor e consumador da nossa fé." Mais adiante, o inspirado autor afirma: "Lembrai-vos do vossos pastores, que vos falaram a palavra de Deus, a fé dos quais imitai, atentando para a sua maneira de viver.  Jesus Cristo é o mesmo ontem e hoje, e eternamente". (Hb 12:1-2b/13: 7-8).  A palavra de Deus nos fornece precisa orientação: amemos tais homens, amemos Calvino, Lutero, Whitefield, Wesley, Lloyd-Jones, Spurgeon, John Knox, Myer Perlman, Stanley Horton, J. I. Packer, John Piper e tanto outros, atentando para seu testemunho e ensino, como piedosa referência, mas sempre focando Jesus, autor e consumador da nossa fé e Senhor de todos nós.

Soli Deo Gloria


Notas:

[1] STOTT, John. Cristianismo Equilibrado. São Paulo: CPAD, 1995.


[2] Stott também prescreve um remédio para tal tipo de situação onde se encontram os tradicionalistas e os que dão ênfase em demasia à sua tradição teológica.

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

Quem é você desde a última encarnação?

Deus é soberano. E Sua soberania é perfeita e sem limites. Não há nada neste mundo que fuja ao Seu onipotente controle.

O Senhor reina sobre tudo e sobre todos (Sl 103.19). Inclusive sobre os nossos relacionamentos com as pessoas.

Cada pessoa que conhecemos em nossa vida foi especificamente determinada por Deus- bem como a forma e o momento em que as conhecemos. Desde o amigo até o inimigo, do irmão em Cristo ao ímpio, do agradável ao difícil de lidar: todos, exatamente todos, foram postos em nosso caminho a fim de que o Senhor seja glorificado e que nós sejamos moldados à imagem de Cristo.

E existe algo acerca de todos nós que Deus traz à tona, de modo muito interessante, por meio das pessoas que nos cercam: a realidade de que somos pecadores.

Se você for um cristão genuíno, você almeja crescer em santidade. E isto envolve cada vez mais conhecimento bíblico e teológico, oração e obediência à Palavra de Deus. E como você tem um coração perverso e enganoso como o meu (Jr 17.9), você não se sente nem um pouco à vontade quando as suas deficiências na vida cristã são expostas aos outros. 

Com certeza, permitir que as pessoas que lhe admiram- por ter lhe visto expor bem um texto específico das Escrituras- notem que você não conhece a Bíblia como um todo tão bem quanto lhes parecia, é um problema para você. Assim como deixar que elas percebam que você não possui todas as respostas, mesmo sendo o “comentar com propriedade cada tema ventilado pelo pastor” uma característica marcante em você, é um grande pesadelo. E o que dizer de sua memorização bíblica? O que você não faz para esconder o fato de que, mesmo que você fale muito sobre pregações, história da igreja, doutrinas profundas da fé cristã e muitas outras coisas; você não sabe nem mesmo um capítulo inteiro do Livro sagrado?

Mas Deus é fiel. E por ser fiel, Ele irá nos tratar. O Senhor irá combater a nossa tendência pecaminosa ao orgulho, ao amor-próprio, à auto-suficiência, e a todos os outros males provenientes de nosso coração mau.

E é neste ponto que eu gostaria de falar, com seriedade e temor, sobre uma das formas pelas quais Deus trata conosco em Sua maravilhosa soberania- a qual está intimamente ligada aos nossos amigos e a todos que nos cercam:

A soberania de Deus é santa (Tg 1.13). De modo que em todas as Suas obras o Senhor é perfeito e sem pecado- mesmo quando Ele usa certas coisas não muito louváveis por nós. E com isto me refiro a algumas brincadeiras acerca de nós feitas por aqueles que nos cercam. E entenda “brincadeira” como uma “encarnação”. O que é muito comum de ser feito num círculo de jovens.

Lembra daquele seu amigo cristão que vive brincando com o fato de você falar muito, e que move muitos outros a fazerem o mesmo com você; de maneira que toda vez em que você vai se manifestar em público todos dizem rindo: “seja breve!”? E daquele que vive lhe “encarnando” quando vê você ostentando em suas pregações o seu conhecimento das línguas originais da Bíblia, dizendo que no fundo você quer é se mostrar superior aos “pobres irmãos que, infelizmente, só conhecem a língua portuguesa.”?

Ah, e você não pode deixar de lembrar daquele que lhe chama de preguiçoso devido ao fato de você “ter muitos livros na estante, mas quase nenhum no coração”, rindo de sua falta de concentração na leitura até mesmo de um livreto de linguagem simples. Sem, falar, também, daquele que vive lhe chamando de “fariseu” e de “desviado”, por você notoriamente passar bastante tempo trabalhando, de modo que o seu tempo para a leitura bíblica é quase nenhum.

Lembrou? Então eu gostaria que você considerasse seriamente estas e cada uma das encarnações pessoais que você sofreu e ainda sofre. E longe de lhe dizer que isto é o tão famoso “bullying”, quero que você saiba que isso é a mão soberana de Deus tratando as suas deficiências. É Deus tratando o pecado de seu coração. É Deus mostrando que você está longe da perfeição. É Deus lhe tornando mais paciente, amoroso com as pessoas, sóbrio, pertinente, sábio, humilde. Revelando que não importa quão maduro na fé você seja, você é um pecador! E que você só pode confiar e descansar, não em seus frutos piedosos, mas unicamente em Cristo Jesus: “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29).

Quero que você saiba que eu também já fui muito encarnado (e ainda sou). Por não ser muito bonito (risos), já fui motivo de risadas em massa quando criança- sem falar que geralmente eu era conhecido mais por um apelido que enfatizasse uma “característica marcante” minha do que pelo meu próprio nome. E ao invés de me fazer bater em todos os meus amigos, isso me ensinou a lidar com a realidade de quem eu sou. Quebrando qualquer tipo de auto-estima.

E graças a Deus por tudo isso. Pois mesmo que obviamente eu tenha até mesmo chorado ao ver expostos os meus defeitos, de personalidade e de “ausência de beleza” (nunca tinha dado tantas risadas ao escrever um texto), isso me levou a Cristo. Ele sim é perfeito em tudo. 

Que eu e você sejamos satisfeitos em Cristo em tudo. Não somente em temas eclesiásticos, mas em nossa vida como um todo. 

Graças a Deus por Cristo Jesus, nosso redentor, para sempre! Termino com as inspiradas palavras do apóstolo Paulo:

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo, como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em caridade, e nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado” (Efésios 1.3-6).

Que Deus seja glorificado.

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Eu posso me purificar?

Na leitura dos salmos durante estes dias, veio à minha mente a seguinte pergunta: "Eu posso me purificar?"

Creio que é um problema sério o fato de muitas pessoas considerarem trivial esta pergunta. Pois provavelmente muitos de meus leitores responderão: "É claro que não! Todos somos pecadores. É Deus quem nos purifica."

E esta é a resposta meio que decorada de muitos (em especial de calvinistas), a qual é repleta de passividade quanto à nossa responsabilidade perante Deus.

Dizer que é Deus que nos purifica é fundamental. De modo que o Senhor não somente inicia a nossa santificação, mas é Ele que continua a operar a nossa santificação dia após dia. Entretanto, esta ênfase na soberania de Deus não pode de maneira nenhuma anular a nossa responsabilidade diante do Senhor. E creio que esta é uma tendência de muitos calvinistas.

Mas vejamos o texto que suscitou à pergunta em questão:

"Como purificará o jovem o seu caminho? Observando-o conforme a tua palavra" (Salmo 119.9).

E este texto me chama muito à atenção porque o jovem é o agente ativo. Não está escrito "Como o caminho do jovem é purificado?" Não, é mais pessoal. Tem a ver diretamente com o jovem. É ele que purificará a sua vida.

Mas, cuidado! Não estou pregando salvação pelas obras ou livre-arbítrio em seu mais alto grau. O que estou afirmando é a responsabilidade que o salmista, inspirado pelo Espírito Santo, põe sobre o jovem. E este enfoque na responsabilidade é imprescindível para todos nós. Porque é muito comum tratarmos da santificação pessoal de maneira simplista. E gostaria de citar um dos principais pensamentos simplistas que alguém pode ter em relação à santificação (eu, em especial, sou muitas vezes tentado a pensar assim). É como segue: “Não tenho de que me preocupar. Embora eu seja pecador, estou olhando para Cristo. Logo, no final tudo dará certo.”

E pensando desta forma somos levados à maldita passividade em relação ao nosso pecado e consequentemente à nossa santificação. Mas que Deus nos livre disso. Que por meio de Seu Santo Espírito o Senhor nos capacite a lutar contra o pecado em obediência à Sua Palavra. Pois é isto que o salmista responde a cada um de nós- “observando-o conforme a tua palavra.”

E este contínuo observar de nossos atos em conformidade com a Palavra de Deus é chamado de santificação pessoal. De modo que somos chamados por Deus a considerar os nossos caminhos de modo bíblico e racional. Não nos baseando em sentimentos ou em “santas inclinações”, como se a nossa vida fosse transformada por osmose. Pois o agir de Deus em nós envolve as disciplinas normais da vida cristã, como a leitura bíblica e a oração.

Penso que este ponto é o centro de muitos de nossos (calvinistas) problemas. Porque é dada tanta ênfase no agir de Deus na salvação que se gera uma espécie de “senso comum calvinista” no sentido de que, se caso alguém enfatizar a responsabilidade humana na santificação, pode indicar que tal pessoa credita a sua salvação a si própria. Mas isto não é verdade. Vejamos alguns textos em que somos chamados à santificação ativamente:

" Ora, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus." [1]

"E qualquer que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também ele é puro." [2]

E dentre estes textos que nos convocam ativamente à purificação, creio que o primordial, para que não caiamos em legalismo, é o seguinte:

"...assim também operai a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é o que opera em vós tanto o querer quanto o efetuar, segundo a sua boa vontade."[3]

E agora chegamos à conclusão de todo este texto: Nós podemos nos purificar, e se somos cristãos de fato, devemos purificar nossos caminhos pela Palavra de Deus. Mas a verdade é que soberanamente sobre o nosso agir, é a graça de Deus que está operando em nós. Pois à parte de Cristo, a santificação é impossível para nós. E além disso, todos os nossos esforços, capacitados pelo Espírito Santo, em direção à santificação diária são operados em nós por Deus. De modo que em todas as coisas, somente Deus é glorificado.

Que Deus nos capacite a obedecê-Lo diariamente. E que o Senhor nos ajude a conformarmos o nosso caminho à Sua maravilhosa Palavra.
Que Deus seja glorificado.

Notas:
[1] 2 Co 7.1
[2] 1 Jo 3.3
[3] Fl 2.12,13.





Ora, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus.
2 Coríntios 7:1
Ora, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus.
2 Coríntios

Ora, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus.
2 Coríntios 7:1





quarta-feira, fevereiro 01, 2012

A Vitória de Cristo na Cruz - Carlos Eduardo (Conferência Graphe)

Finalmente estamos lançando na rede os vídeos da Conferência Graphe 2011, que abordou temas relacionados com a morte do Senhor Jesus na Cruz do calvário. Nesta, Carlos Eduardo fala sobre a vitória alcançada pelo Mestre na Cruz. Confira!





Soli Deo Gloria