quinta-feira, março 15, 2012

Até onde vão as suas referências?

Nunca me esqueci de quando li na adolescência, pela primeira vez, um livro de John Stott. Cristianismo Equilibrado, publicado pela CPAD, tinha poucas páginas, quase um livreto. Nele, Stott aborda sobre os problemas envolvendo os que buscam resguardar a tradição teológica eclesiástica e os que se envolvem numa busca constante para o novo. Uma das críticas na qual ele reserva para o último grupo é que estes sempre buscam algo novo por vezes menosprezam o antigo ou então possuem pouquíssimo respeito por ele. Tais tipos de pessoas não respeitam "vaca sagrada" alguma¹. Não há dúvidas que Stott estava absolutamente certo e que sua crítica é válida até os dias de hoje. O surgimento do movimento emergente e suas problemáticas é uma prova que Stott permanece atual e importante para o cenário evangélico mundial. O livro de Stott continua a impactar tantas pessoas hoje quanto me impactou há alguns anos atrás. Todavia, há um problema hoje que talvez deve ser visto com profunda atenção, em especial em círculos reformados atuais.  

O que ocorre hoje com muito mais frequência entre o público jovem e reformado parece ser o oposto do que Stott escreveu². Hoje parece que há tanto respeito e apreço pela tradição teológica que ela parece ser uma "vaca sagrada" na qual o simples fato de questioná-la ou até mesmo atrever-se a refletir sobre ela é o mais profundo sacrilégio. Por vezes os pentecostais são acusados de darem extrema importância a pregadores celebridades, destituídos de base bíblica sólida e que fomentam as mais perversas heresias dentro do povo de Deus. Tal crítica é totalmente correta e necessária (ainda que menospreza vários fatores no que tange ao pentecostalismo e o que é realmente ser pentecostal). Todavia, dar extrema importância a homens piedosos pode ser extremamente danoso e perigoso igualmente. Talvez não haja exemplo mais valioso do que o reformador João Calvino. Por vezes escutamos críticas injustas à pessoa e teologia de João Calvino, assim também como os equívocos são os mais diversos. Porém, quando ouvimos determinadas pessoas falarem de Calvino, a imagem que eles descrevem e que mentalizamos em nossos corações é igual à figura abaixo:

Calvino, como retratado na figura acima, é por vezes visto com um super-herói inigualável.

Nessa figura, vemos Calvino não simplesmente como um herói da fé, mas como alguém dotado de superpoderes prestes a salvar o dia; e por que não, o mundo inteiro. Vemos Calvino como alguém que é a medida de todas as coisas, onde de suas palavras saem profundo manancial espiritual e possuem um peso praticamente plenário-verbal. Suas Institutas devem ser vistas como um verdadeiro apêndice à Bíblia Sagrada, sendo que sua pessoa é quase a quarta pessoa da divindade. Quando citamos seu nome, praticamente saímos do chão. Dentre os nascidos de mulher, não houve tal igual a ele. Aplique isso a todo o restante do calvinismo e o sistema teológico derivado dele. Por certo até onde conhecemos seus escritos, podemos dizer que ele mandaria queimar tal desenho feito a respeito dele, assim também como se sentiria constrangido com os elogios descabidos. A melhor maneira de vermos Calvino mais adequadamente é refletida na Figura abaixo:

Calvino, segundo uma gravura antiga: Estudioso e dedicado à Palavra de Deus.

Aqui, teríamos um quadro bem melhor de Calvino. Um homem erudito, porém extremamente aplicado no conhecimento da Palavra de Deus, focado e concentrado no que realmente importa. Com relação às colocações feitas anteriormente, é importante fazer algumas observações.

Não estou acusando os reformados em geral de idolatria, mas sim de existir em alguns setores uma ênfase exagerada em Calvino e no resto da tradição reformada que chegam a aparentar (grifo meu) ter esse tipo de pensamento, o que gera não um entendimento profundo da teologia reformada, mas apenas clichês calvinistas. Nem tampouco quero menosprezar a figura de João Calvino como um dos maiores teólogos da história da igreja, senão o maior. Seus comentários claros, objetivos e piedosos nos fornecem piedosos insigths que nos orientam na vida cristã e nos aperfeiçoam no relacionamento e serviço com Cristo. Assim também como sua teologia reflete de forma cristalina a verdade da Palavra de Deus; e aí que está o ponto-chave que é necessário esclarecer: Necessitamos expressar de forma clara que a autoridade do homem está em pé apenas quando ele se coloca de acordo com a Palavra de Deus. Cristo é nosso supremo alvo e único objeto de adoração. O apóstolo Paulo, um homem inspirado de forma plenária e verbal por Deus, afirmou: "Pois quem é Paulo, ou quem é Apolo, senão ministros pelo qual crestes, e conforme o Senhor deu a cada um? Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. Pelo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento" e mais adiante afirma: "Segundo a graça que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como se edifica sobre ele. Porque ninguém pode pôr outro Fundamento, além do qual já está posto, o qual é Jesus Cristo" (1 Co 3:5-7/10-11).  Por certo devemos alegrarmos em nossa doutrina e tradição, porém deixando bem claro que ela se deriva da Palavra de Deus.

Talvez não haja melhor orientação no que tange a esse assunto do que a Epístola aos Hebreus: após citar os grande heróis da Fé no capítulo 11, o autor afirma: "Portanto, nós também pois, que estamos rodeados de uma tão grane nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos, com paciência, a carreira que nos está proposta. Olhando Para Jesus, o autor e consumador da nossa fé." Mais adiante, o inspirado autor afirma: "Lembrai-vos do vossos pastores, que vos falaram a palavra de Deus, a fé dos quais imitai, atentando para a sua maneira de viver.  Jesus Cristo é o mesmo ontem e hoje, e eternamente". (Hb 12:1-2b/13: 7-8).  A palavra de Deus nos fornece precisa orientação: amemos tais homens, amemos Calvino, Lutero, Whitefield, Wesley, Lloyd-Jones, Spurgeon, John Knox, Myer Perlman, Stanley Horton, J. I. Packer, John Piper e tanto outros, atentando para seu testemunho e ensino, como piedosa referência, mas sempre focando Jesus, autor e consumador da nossa fé e Senhor de todos nós.

Soli Deo Gloria


Notas:

[1] STOTT, John. Cristianismo Equilibrado. São Paulo: CPAD, 1995.


[2] Stott também prescreve um remédio para tal tipo de situação onde se encontram os tradicionalistas e os que dão ênfase em demasia à sua tradição teológica.

2 comentários:

Edinei Siqueira disse...

Caro Leonardo,

Parabéns, pela profunda reflexão sobre o tratamento que é dado a Calvino nos arraiais reformados.
Deveras, eu já tinha feito a mesma observação ao ver a enfase exagerada que é dada a Calvino e sua teologia, quase como uma calvinolátria no meio reformado, como se ele fosse o auferidor de medida e autoridade paralelo às Escrituras Sagradas.
Deveras, calvino foi um grande interprete e sistematizador da doutrina cristã, a ponto de ser chamado de "teólogo do Espírito Santo, mas daí, elevá-lo a uma posição tão alta no campo teológico é como canonizar seus escritos em detrimento da produção teológica de outros vultos do cristianismo.

Pb. Edinei, Th.B

Jeferson Nascimento disse...

Parabéns! Amei a sua colocação.

Somente Cristo!