segunda-feira, outubro 09, 2017

Um Casamento Feliz Prevenirá um Caso de Adultério?



Li o seguinte texto recentemente e fui bastante edificado. Espero que você também encontre grande benefício para sua vida e família. O original, escrito por Russell Moore, pode ser acessado aqui. Boa leitura. Que Deus nos abençoe e ajude.
                                                                                * * *
Sempre que alguém vê um casamento desmoronar-se por causa de adultério, uma das primeiras coisas que se ouve é, “E eu pensei que eles fossem tão felizes!” Geralmente, tendemos a assumir que casais que são dilacerados por caso extraconjugal deveriam estar secretamente em turbulência por anos. Sobretudo, assumimos que aqueles de nós que são felizmente casados estão, portanto, protegidos desta mesma crise. Em um novo artigo provocativo, uma terapeuta de casamento argumenta contra estas suposições. Ela afirma que um relacionamento feliz não é garantia contra quebra de votos. Penso que ela pode nos levar a algo importante.

Na edição de outubro de The Atlantic, Esther Perel relembra-se do escopo de seus encontros de aconselhamento com casamentos em crise por infidelidade e observa o quão raramente ela vê pessoas adúlteras que traem a fim de fugirem de um mau relacionamento. Geralmente, ela escreve, é exatamente o oposto. Ela depara-se com pessoas que querem manter o casamento delas, do jeito que ele é, e que de fato não querem abandoná-lo por causa de outro relacionamento.

Em certos aspectos, o argumento de Perel é mal direcionado. Principalmente, ela vê o adultério quase exclusivamente em termos terapêuticos, em vez de morais. Deixando isto de lado, o ponto principal de seu argumento tende a se alinhar exatamente com o que tenho visto em milhares de casos de intervenção pastoral em casamentos em crise devido a adultério. Os casos, frequentemente, não são sobre falta de felicidade ou falta de sexo. Há algo mais em andamento.

Perel nota que muitos dos “outros parceiros” escolhidos por companheiros adúlteros não são, de modo nenhum, o tipo de pessoa que a esposa traidora um dia iria querer em companhia de vida, observando o exemplo de uma mulher conservadora que reconhece o clichê de caso amoroso dela com um motociclista tatuado. O que está ocorrendo não é uma busca por um melhor amante ou uma melhor esposa, mas pelo “eu inexplorado”. Um caso não é sobre orgasmo, ela afirma, mas sobre nostalgia.

A pessoa que trai está frequentemente buscando reconectar-se com a pessoa que ele ou ela já foi, antes da responsabilidade diária de trabalhar num emprego ou de manter família. Isto é especialmente verdade em uma era de redes sociais onde, quase sempre, casos começam por uma “conferida” em alguém do ensino médio, da universidade ou de um antigo local de trabalho. A questão não é tanto que a pessoa sente falta desta antiga conexão, e sim o quanto ela sente falta de ser a pessoa, novamente, que esta antiga conexão uma vez conheceu. A questão é: “Ainda sou a pessoa que eu era nesta época?”

Aqui, penso eu, ela está exatamente correta. Um tema comum que tenho encontrado em adúlteros é que aquele que trai está quase sempre buscando recapturar o sentimento de adolescência ou de juventude. Por curto período de tempo, a pessoa é varrida para um drama de romance de “eu te amo; você me ama?”, sem todos os fardos de quem está buscando Chloe na escola, ou de qual dia colocar o lixo reciclável na calçada, ou de como fazer o orçamento para a hipoteca. O amante secreto parece fazer a pessoa casada se sentir jovem ou “viva” de novo, até que tudo desabe. A pessoa, frequentemente, não está procurando por uma experiência sexual, mas por um universo alternativo, no qual ele ou ela fez escolhas diferentes.

Ela também está completamente certa no fato de que geralmente nossas ideias e expectativas do que faz um casamento “feliz” contribuem para o adultério. Dizem-nos para esperar “o Único” a fim de atendermos a toda necessidade de autorrealização. Restringimo-nos de fazer sexo com outros, ela observa, não por causa de um senso de dever moral, mas porque temos encontrado o único que nos fará felizes. A felicidade, entretanto, em nossas imaginações não corresponde ao que ela realmente é. “Temos conjurado um novo Olimpo onde o amor permanecerá incondicional; a intimidade, cativante; e o sexo muito estimulante, com uma pessoa, por um longo trajeto,” ela escreve. “E o trajeto torna-se cada vez maior.”

Os melhores, mais seguros e estáveis casamentos que conheço não são tipicamente aqueles que parecem “felizes” no sentido de autorrealização. Ao invés disso, são aqueles casamentos em que, geralmente através de profundo sofrimento, o marido e a esposa modelam o autossacrifício e o cuidado para com o outro. Como Cristo e a igreja, a união deles de uma só carne é forjada não através de demandas para o outro atender a necessidades, mas através de um senso de propósito comum. Nestes casamentos saudáveis, um cônjuge não olha para o outro para proporcionar identidade. Em vez disso, ambos os cônjuges encontram identidade em Cristo. Minha vida não é posta em perigo por comparação com outros casamentos ou com minha vida mais jovem idealizada, porque minha vida está escondida em Cristo. Isto concede a liberdade para amar. E, a longo prazo, isto concede o tipo de liberdade em que há a habilidade para alguém alegrar-se na esposa (ou marido) de sua juventude.

Um casal, mesmo um casal cristão, não deve assumir que eles são imunes à infidelidade porque eles amam um ao outro, porque eles são felizes, ou porque as acrobacias sexuais deles são frenéticas. O diabo sabe que a maneira de derrubar alguém não é através de um cônjuge deficiente, mas, sim, através de um eu deficiente. “Às vezes quando buscamos o olhar fixo de outro, não é de nosso companheiro que estamos nos afastando, mas da pessoa que nos tornamos,” Perel escreve. “Não estamos à procura de outro amor tanto quanto estamos à procura de outra versão de nós mesmos.”

É por isso que a Escritura nos chama para estarmos cuidadosos quanto à nossa própria vulnerabilidade. É por isso que a Escritura fala a maridos e esposas para manterem a união sexual um com o outro. Não porque o sexo é um apetite que deve ser ser satisfeito, mas porque o sexo pode nos conectar um ao outro, lembrando-nos de quem fomos chamados para amar e servir. Isto requer, porém, que alguém veja a si mesmo crucificado com Cristo, vivo nEle. Exige ver-se responsável diante de algo, Alguém, maior até mesmo que os seus votos de casamento. E isto requer que o amor não seja um meio para fazer a si mesmo grande, mas um meio de derramar-se por outro. Significa que deve-se ver que o cenário do casamento não é um espelho, mas uma cruz.

sexta-feira, outubro 06, 2017

Top 10 Reforma Protestante: Os melhores livros de (e sobre) Lutero

Martinho Lutero


Neste ano, a Reforma Protestante completa 500 anos e tanto no Brasil quanto no mundo, abundam as propagandas e o marketing editorial lançando obras dos reformadores ou sobre a Reforma, sendo que obras há muito já publicadas no exterior estão sendo lançadas e relançadas no Brasil. Certamente quem ganha com isso é o leitor brasileiro, que agora conta com um catálogo bem mais amplo de obras eruditas e excelente conteúdo. Destaquei aqui, dentre essas excelentes obras, algumas obras introdutórias para que o leitor que queira se aprofundar mais sobre o monge alemão que causou profundo impacto na igreja de Cristo. Tais obras variam no nível de complexidade, mas que contam com um excelente conteúdo informativo sobre a pessoa do reformador alemão, assim como algumas de suas obras mais famosas. Vejamos:







1. Lutero (Editora Vida): Essa biografia, escrita em 1916 e republicada em 2005 com linguagem atualizada, é uma pequena porém boa obra introdutória acerca da vida de Lutero. Os fatos são narrados de maneira simples, porém sem cair na superficialidade e sem deixar  também de dar detalhes importantes acerca da vida do reformador. Uma das melhores obras introdutórias acerca de Lutero.




2.  O Cativeiro Babilônico da Igreja (Martin Claret)- Umas das primeiras obras de Martinho Lutero, que juntamente com Da liberdade Cristã e À Nobreza Cristã da Nação Alemã, deram vazão à profundidade do movimento da Reforma. Nesse livro, um jovem Lutero é implacável contra a estrutura papal da Igreja católica. Aqui, o reformador anula a missa como sacrifício e a maioria dos sacramentos, atacando inclusive, a transubstanciação. Aqui temos Lutero no início, sendo que essa obra revela um importante passo dado pelo reformador rumo à maturidade espiritual como estudioso da Palavra de Deus.







3. A Teologia de Martin Lutero - Oswald Bayer (Sinodal) - Nessa obra, o teólogo alemão Oswald Bayer discute acerca da rica teologia de Lutero, revelando assim as profundezas do pensamento teológico-dialético do Reformador.






4. Da Autoridade Secular (Concórdia) - relançada neste ano, aqui temos Lutero defendendo  o princípio da distinção entre a autoridade secular  ou da "espada"(o estado) e a autoridade "da palavra" (igreja). Pode-se notar a influência de Agostinho, porém com um forte substrato bíblico-teutônico na pena do reformador. Vemos aqui que Lutero começa a defender algo pouco usual para a época: uma distinção clara entre igreja e estado, o que contribuirá para o conceito da liberdade de consciência. Livro essencial para entender a ética bíblico-política de Lutero, que pouco mudou no decorrer dos anos.







5.  Cativo à Palavra (Vida Nova) - Roland Bainton - Essa obra, lançada nos anos 50, até hoje é um clássico acerca da vida e obra de Lutero. Aqui, vemos detalhes minuciosos da vida do reformador e análises precisas acerca do contexto histórico do século XVI, tudo isso contado em uma linguagem simples de Bainton. Talvez seja a melhor biografia popular escrita sobre o reformador.







6. Lutero e a Teologia da Cruz (Cultura cristã)- Alister McGrath - Importante livro escrito sobre uma das maiores contribuições de Lutero à teologia: A teologia da cruz, esboçada por Lutero, contra a "Teologia das obras" esboçada pelo catolicismo romano. Escrita pelo conceituado escritor anglicano Alister McGrath, essa obra é recomendada inclusive por teólogos luteranos confessionais para um entendimento introdutório da obra de Lutero.







7. Da Liberdade do Cristão (Unesp) - Essa obra é uma das mais conhecidas de Lutero. Dada a questão que o ser humano é justificado pela fé e não pelas obras, como deve proceder o cristão com tal liberdade? Lutero elabora um conceito paradoxal de liberdade, expressa de maneira sucinta e por vezes citada por estudiosos: "Um cristão é um senhor submisso não sujeito a ninguém. O cristão é um servo submisso a todos". A edição da Unesp traz ainda em paralelo a tradução o texto original em alemão.






8. Educação e Reforma (Concórdia) - Obra clássica do reformador, onde ele descreve o inovador conceito protestante de educação. Ao contrário do pensamento elitista da época, todos deviam aprender a ler e a escrever, para que assim pudessem se instruir na Bíblia e nas ciências, tornando-se assim bons cidadãos e cristãos exemplares. Um livro extremamente recomendado para todos os profissionais de educação cristãos.







9. Nascido Escravo (Fiel) - esse livro, que serviu como uma resposta ao teólogo humanista Erasmo acerca do livre-arbítrio, mostra a capacidade argumentativa e firmeza bíblica de Lutero, além de seu talento como polemista. A obra foi uma das primeiras a debater um tema que se tornaria ponto de discórdia no protestantismo pós-reforma. Ao mostrar a depravação total do homem, Lutero mostra que este não tem como contribuir em nada para a sua salvação, dependendo exclusivamente da misericórdia de Deus. A edição da Fiel é uma versão abreviada da edição norte-americana feita por Clifford Pond e adaptada para um vocabulário atual. Para quem quiser conferir o texto completo deve conferir a edição da volumosa coleção "Obras de Lutero" editada pela Comissão Interluterana de Literatura, que hoje se encontra no 12° volume.


10. O Livro de Concórdia (Sinodal/Ulbra/ Concórdia) - Esse livro é o documento máximo e padrão para a fé luterana e confessional. Neles se encontram o Catecismo menor e Maior de Lutero, A Confissão de Augsburgo, Os Artigos de Esmalcade, entre outros. Neste documento, se encontram todos os fundamentos comuns a todos os cristãos protestantes e evangélicos, assim como as particularidades confessionais da Teologia luterana. Livro excelente para estudiosos da Reforma, teólogos e professores de escola dominical.






 Há outros livros e edições que merecem menções honrosas, como por exemplo a Compilação feita pela editora Vida Nova, que contém alguns livros dessa lista e outros principais escritos do Reformador. A biografia feita pelo professor luterano Martin Dreher também merece destaque nos estudos, assim como a edição comemorativa da editora Vida que juntou as 95 teses e o livro O Cativeiro Babilônico da Igreja em edição de bolso. O leitor que adquirir tais obras será grandemente abençoado ao conhecer um pouco mais sobre a vida e escritos do reformador alemão que sacudiu o mundo há quinhentos anos atrás. Boa leitura!

Soli Deo Gloria!

sexta-feira, abril 28, 2017

O que a "nossa" Confissão de Fé assembleiana não abordou





Recentemente me achei pensando (e ainda estou com tal pensamento em mente) escrever, depois de tantos anos, acerca das eleições da CGADB neste ano, que talvez poderia ser classificada como "A Eleição dos 10 mil Fantasmas", que revela algo que tem sido ventilado por este blog e por outros há quase 10 anos. O charco de lodo fétido e imundo que administrativamente nossa convenção se tornou, e que nada contribui para o bem-estar da igreja Assembleia de Deus no Brasil. Todavia, a noticia de nossa recém divulgada Confissão de Fé assembleiana¹ merece destaque especial, que acaba por resvalar também nesta questão, e que abordaremos agora.

A confissão em Si.

Diferentemente do que o leitor pode pensar, não me refiro aqui à doutrina arminiana adotada pela Confissão no que tange à salvação. Na verdade, eu concordo de bom grado com um bom percentual do que foi dito, assim como discordo em 100%  com algumas linhas, e ainda tenho cerca de 100% de incerteza do que realmente queria ser dito em outras duas. No  que tange à estrutura da predestinação o estilo da Confissão é um arminanismo mais "Wesleyano" do que "Clássico", quase sendo um amálgama dos dois, porém de maneira geral a opinião teológica desse assunto foi bem expressa; se esta faz jus às declarações bíblicas a história é outra. 

No geral, a Confissão de Fé (chamada oficialmente de Declaração de Fé) está muito boa no que tange a uma expansão do antigo credo assembleiano, e abraço tais doutrinas de coração, ainda que eu não seja tão dogmático no que tange à antropologia (tricotomia X dicotomia), e abrace com alegria e firmeza o dispensacionalismo pré-tribulacionisa, não teria tanto problema em permitir um dispensacionalismo mid-tribulacionista (ainda que popularmente os assembleianos adotem um modelo dispensacional parcial-tribulacionista²). Mesmo assim, a Confissão aborda de maneira sábia e biblicamente saudável tais questões. A doutrina do Batismo com o Espírito Santo está bem definida nos moldes assembleianos clássicos, o que fortalece nossa identidade pentecostal (ainda que haja certas divergências no meio pentecostal supra-assembleiano quanto à evidência física inicial).

O que faltou à Confissão.

A Confissão, no que tange a doutrina da igreja, dá um bom resumo sobre a natureza teológica da igreja, como Corpo Místico de Cristo. Porém, praticamente NADA foi dito acerca da base neotestamentária para o governo de Igreja. No capítulo XVI, Sobre a Forma e Governo da Igreja, nada é realmente dito acerca da estrutura em si. Afinal, qual o modelo eclesiológico oficial das Assembleias de Deus?  Episcopal, presbiteriano, congregacional? Apenas a descrição dos títulos de oficiais bíblicos e sua explicação não é suficiente. A confissão chega a afirmar que a estrutura neotestamentária, ainda que existente, é rudimentar! Como os ofícios ministeriais na prática ministerial  assembleiana funcionam é algo bem mais complexo e que urgentemente precisa de algo mais "rudimentar"É fato que a assembleia de Deus se originou do meio Congregacional batista, modelo este, que vejo hoje de maneira geral como o ideal para o meio assembleiano e bem mais fundamentado nas Escrituras, porém  com o passar dos anos, acabou sendo menosprezado e esquecido por muitos, e o resultado foi a adesão de um sistema piramidal destituído de base bíblica sólida, e mantido pela ótica e ambição humana³. O pior de tudo é que esse deslize histórico encontra até mesmo espaço em nossa Confissão, que agora inventou um novo ofício eclesiástico: O de "Cooperador". A Confissão nada mais fortalece tal modelo irreal.

Não se pode ignorar a falta desse assunto em nossa Confissão, pois ele realmente é nevrálgico: Um firme biblicismo sobre a Ordem da Igreja. Um dos grandes males da Assembleia de Deus e que muito pesa na própria CGADB é a estrutura eclesiástica assembleiana, governada através de caciques e generais, preocupados apenas com o status quo e seu império particular.  

O que nos falta agora.

É de máxima urgência que a assembleia de Deus retorne ao  modelo congregacional de onde se originou, é necessário uma participação da igreja local como igreja genuína e importante. Deve-se priorizar os interesses do reino de Cristo e o bem-estar da igreja, não o mero poderio de pastores. Uma Convenção não somente de pastores, mas de igrejas, que procuram edificar-se mutualmente e expandirem o Evangelho de Cristo, fundamentada nas escrituras e com um coração regenerado e sincero. O que temos hoje é cada vez mais a entrada da Teologia da Prosperidade e neopentecostalismo em arraiais assembleianos (doutrinas que não receberam a mínima atenção e reprovação em nossa Confissão), que só servem para beneficiar quem as promove e enganar os incautos. Cada vez mais a genuína heresia entra em nosso meio, mas pouco realmente é feito para combater tal perniciosidade como eclesialmente se deveria. Diante disso, temos doutrinas perniciosas, pastores despreparados, às vezes até mesmo não-vocacionados, muitas vezes até ímpios e impostores com estrada pavimentada e caminho cada vez mais em aberto em nossas convenções, que procuram simplesmente o poder total. 

O que devemos fazer.

Não se deterá esses tais combatendo o calvinismo. A bem da verdade, nem o arminianismo poderá impedir algo que cada vez mais se deflagra em uma instituição de sobremaneira e em muitos lugares, espiritualmente viva, mas institucionalmente falida, alimentada por uma estrutura eclesiástica não bíblica. São essas coisas que verdadeiramente são as inimigas da Assembleia de Deus, são essas coisas que devemos realmente combater. Que Deus nos ajude.

AMÉM!

Soli Deo Gloria


Notas:

1. a declaração de fé pode ser encontrada e lida gratuitamente através do seguinte link: https://teologiapentecostal.blog/2017/04/27/declaracao-de-fe-das-assembleias-de-deus/.

2. A teoria do Arrebatmento Parcial, a groso modo, diz que nem todos os crentes genuinamente salvos serão arrebatados, mas somente os que estiverem "vigiando" em Cristo. Talvez tal visão seja até mais coerente com o arminianismo do que o Pré-tribulacionaismo.

3. Tratei acerca da origem do moderno sistema assembleiano em um artigo anterior, disponível no blog teologia pentecostal (acesse clicando aqui). No artigo em questão, tive preferência pelo modelo presbiteriano, porém ao analisar mais a fundo as escrituras quanto a história, vi que o modelo congregacional é o mais saudável para a Assembleia de Deus, tanto bíblica quanto historicamente.

segunda-feira, abril 17, 2017

Teologia Fast Food

Na era do fast-food1, já existe a denúncia de uma fast-science2. Contudo, tenho presenciado o surgimento de uma fast-theology3, marcada pelo mesmo mal das outras tantas “fast”: mediocridade, péssima qualidade, superficialidade e bizarrices caricaturais.
Os novos cursos são: teólogos de youtube, bacharelado em facebook e especialização em twitter – dedos frenéticos e irresponsáveis produzindo palavras em massa e sem dizer absolutamente nada que contribua para alguma coisa, indo do nada para lugar nenhum.
Fazem-no, ainda, de maneira ofensiva, desrespeitosa e caricaturada, extremamente superficial e ignorante; bagunçando o esforço para o amadurecimento da produção teológica no Brasil. Além disso, buscam um sectarismo infantil e irresponsável – infundado e incompatível com o Evangelho.
Parece que a síndrome da produção em massa que afeta as graduações no Brasil, por meio de um fordismo científico, tem se manifestado visivelmente no modo como muitos têm se proposto a fazer teologia dentre os crentes confessionais. Há boa quantidade de teses e artigos absurdos que dariam uma bela fogueira, pelo menos quando alguém tem o esforço de produzir nestes gêneros – e não se limita a socar seus teclados, como um primata, produzindo uma série de palavras e pensamentos desconexos em blogs e outros meios sociais da vida.
A meditação, o aprofundamento teológico e o desejo saudável de glorificar ao Senhor e contribuir para o amadurecimento da igreja, aparentemente, abandonaram o coração de muitos. E não somente de jovens, mas de muitos “marmanjos” que deveriam dar exemplo – inclusive de ditos seminaristas e pastores que, em vez de utilizar o potencial das redes sociais para uma divulgação proveitosa e robusta do Reino de Deus, têm se portado de maneira insuportável nas mesmas.
Essa superficialidade de estudo e de absurda “produção” tem uma tendência injustificada para a crítica ou o debate de baixo nível, também conhecido como “baixaria virtual”: são comentários ofensivos que não contribuem para esclarecer posição teológica nenhuma, nem muito menos para criticar posições contrárias.
Primeiramente, não serve para esclarecer a posição a qual se tenta defender, porque é superficial; de maneira pobre, explica o que todos já sabem; na maioria das vezes, demonstra desconhecimento total acerca da própria posição que defende regado a uma bizarra ignorância Escriturística – quando alguém ao menos se preocupa ou lembra da existência das Escrituras.
Em segundo lugar, são inúteis para refutar alguma coisa porque são escritos caricaturados que nem ao menos conseguem motivar teólogos sérios a apresentar alguma resposta ou comentário, uma vez que eles mesmos não conseguem se identificar com a posição criticada, no máximo são escritos abarrotados de “ad hominem” e que pretendem tornar a porta do céu mais estreita do que de fato ela o é: amaldiçoando crentes, desrespeitando crentes mais velhos, rompendo a irmandade concedida por Deus no sacrifício de Cristo – uma verdadeira barbárie entre ditos crentes.
Penso que os envolvidos nesse circo deveriam estar envergonhados com o espetáculo grotesco que têm protagonizado perante os ímpios aos quais deveriam estar pregando a Cristo, e testemunhando de um compromisso sério com a Palavra de Deus, bem como de preocupação e amor para com a irmandade dos crentes, simplesmente por meio de uma maneira profunda e comprometida de se fazer teologia.
Discordâncias são saudáveis quando implementadas com respeito, amor e sem sacrificar o bebê junto com a água suja da banheira; sem amaldiçoar nenhum crente remido por Cristo ao fogo eterno por ser dispensacionalista, cessacionista, continuísta, pentecostal, amilenista ou qualquer outra posição que é expressa por servos de Cristo e que não criam nenhuma celeuma ou agressão ao Evangelho do Senhor Jesus Cristo, como alguns conseguem bizarramente inventar.
Recomendações e advertências bíblicas acerca do modelo de comportamento cristão como em 2Tm 2:24-26, Ef 4:1-3, 1Pe 3:8-16, bem como da seriedade e consequências de tais comportamentos em Mt 5:21-23, dentre tantas outras, foram removidas das Bíblias de tais homens. Esses textos testemunham contra os que assim têm agido, os quais manifestam descompromisso para com Cristo e Sua Palavra.
Não estou aqui clamando por um discurso relativista ou covarde, para um estanho imperativo dialogal, onde discordâncias são um crime e nenhuma posição deve ser defendida; ao contrário, que façamos tais debates, mas nos portemos como servos de Deus.
Muitos debates ocorreram entre homens sérios ao longo da história da Igreja e contribuíram muito para o amadurecimento doutrinário do corpo, para uma compreensão mais robusta do próprio Evangelho; mas eram feitos por homens comprometidos com Cristo e com Sua Palavra, maduros em sua teologia; que também o façamos de maneira digna com nossa profissão de fé, evitando o erro dos antigos em seus excessos e buscando proporcionalidade e equilíbrio em nossas ações, guardando energia para o combate aos hereges que se levantam contra o Evangelho e respeitando os irmãos de posições contrárias.
Apelo por respeito e valorização daquele que foi comprado pelo Sangue de Cristo. Oro para que o Senhor devolva a racionalidade e a prudência a tais homens; porque, dentre os que estão comprometidos com a teologia séria, é incontestável que tais pessoas são extremamente insuportáveis e que estão atrapalhando muito mais e contribuindo com absolutamente nada para um ambiente teológico maduro, forte e saudável em nossa pátria, e sendo embaraço e tropeço para a propagação do Evangelho de Cristo.
Que o Senhor tenha misericórdia de nós!

Notas:
*Mui grato ao meu amigo e irmão Nilton Rodolfo pela Revisão e Edição.
1. “Fast-food” significa “comida rápida”.
2. “Fast-science” significa “ciência rápida”.
 cf.https://www.cartacapital.com.br/sociedade/slow-science

3. “Fast-theology” significa “teologia rápida”.

sábado, abril 01, 2017

Jacó Armínio: O Cessacionista



Temos vivido dias turbulentos – tanto no contexto nacional quanto no eclesiástico, em especial no âmbito pentecostal-assembleiano. Além dos problemas políticos, nos deparamos com polêmicas eclesiásticas envolvendo a próxima eleição da CGADB (o que já está quase virando tradição). Há, também, os problemas envolvendo Silas Malafaia e o pastor Paulo Júnior, os quais têm tornado as redes sociais um caldeirão de polêmicas. Todavia, meu foco aqui não é abordar tais polêmicas em particular, mas sim uma que pode ser muito mais duradoura e problemática dentro do contexto assembleiano e pentecostal. Algo que envolve a CPAD, o calvinismo nos arraiais assembleianos e um grupo militante arminiano liderado pelo pastor assembleiano Altair Germano. Busca-se agora resgatar uma suposta "identidade arminiana" que a Assembleia de Deus possui. Por mais zelosa que seja tal militância em prol do arminianismo, a história não é tão simples quanto parece; na verdade, há muita coisa a ser vista e revista.

Tanto arminianismo quanto calvinismo são sistemas teológicos que tocam em pontos nevrálgicos da soteriologia (doutrina da salvação). Ainda que mantenham perspectivas diferentes em alguns pontos de doutrina, ambos devem ter seu legítimo lugar dentro do espectro protestante. Porém, é óbvio que tanto o arminianismo (o qual é subdividido em clássico e wesleyano) quanto o calvinismo (que pode ser subdividido em supralapsário, infralapsário, amiraldiano ou compatibilista) compartilham, pelo menos no sentido histórico do termo, de um ponto de vista comum: o cessacionismo. Com Jacó Armínio, criado dentro do cenário das igrejas reformadas holandesas, a situação não é diferente.

Não era o foco de Armínio (como foi posteriormente o de John Owen) tratar sobre Quakers e revelações particulares. Contudo, em sua obra recentemente publicada pela CPAD, o teólogo holandês trata acerca da Perfeição das Escrituras quase nos mesmos moldes da Confissão de fé de Westminster (na época, ainda não publicada):

"Uma vez que iniciemos a defesa dessa perfeição [da Escritura] contra inspirações, visões, sonhos e outras coisas novas e entusiásticas, afirmamos que, desde a época em que Cristo e seus apóstolos peregrinaram pela terra, nenhuma inspiração de qualquer coisa necessária para a salvação de qualquer indivíduo ou da igreja foi feita a nenhuma pessoa ou congregação de pessoas, coisa essa que não esteja, de uma maneira plena e extremamente perfeita, contida nas sagradas Escrituras."[1]


Na mente reformada de Armínio, as Escrituras não abriam espaço para novas revelações ou manifestações carismáticas (chamadas por ele pelo termo comum da época, "coisas entusiásticas"[2]) – pensamento comum da época antes do Movimento Pentecostal.

E aqui chegamos à raiz do problema: o que o pastor Altair Germano e outros militam, além de expurgar a literatura calvinista da CPAD, é buscar preservar e manter a suposta "identidade arminiana" da Assembleia de Deus. Preservando a identidade que só depois de 100 anos de fundação alguns setores da denominação parecem querer preservar;  sendo que a CPAD somente agora publica as obras do fundador do sistema teológico que leva seu nome. Não é de se estranhar tal falta de atenção ao arminianismo clássico na Assembleia de Deus, que contou com alguns calvinistas desde seus primórdios[3]. A identidade assembleiana não é simplesmente arminiana, mas sim pentecostal. Não é a soteriologia, mas a doutrina do batismo com o Espírito Santo e a doutrina da atualidade dos dons do Espírito que nos definem.

O arminianismo, bem como o calvinismo, nasceu em um ambiente cessacionista, e assim o arminianismo permaneceu por muitos anos (mesmo depois de John Wesley). Há muitos arminianos que são tradicionais e rejeitam tanto o calvinismo quanto o pentecostalismo. Afirmar que a identidade assembleiana depende da doutrina arminiana é não entender realmente em que um pentecostal se distingue dos outros cristãos.

A Assembleia de Deus, diferente de sua prima norte-americana, nasceu dentro de um contexto batista, de uma igreja que foi sustentada por muitos anos pela Southern Baptist Convention, primariamente calvinista. O pentecostalismo recebeu influências do dispensacionalismo, o qual, por sua vez, teve origem entre mestres calvinistas[4]. Ser arminiano e dispensacionalista não faz de um cristão um pentecostal, ainda que um pentecostal em geral seja arminiano (e também dispensacionalista). A doutrina pentecostal tem verdadeiro impacto na pneumatologia e eclesiologia, o que dá seu diferencial e identidade própria. Um pentecostal não procura ser original nas doutrinas protestantes clássicas, como acertadamente diz  um dos teólogos mais importantes do início da assembleia de Deus americana, Daniel W. Kerr:

"Temos, portanto, tudo quanto os outros receberam, e recebemos mais essa verdade. Vemos tudo quanto eles veem, mas eles não veem o que nós vemos."[5]

O grande diferencial da fé pentecostal é justamente enfatizar uma verdade negligenciada dentro da igreja: o revestimento de poder e a atualidade dos dons espirituais em um vibrante ministério do Espírito na vida do Corpo de Cristo. Nesse aspecto, tanto o arminianismo quanto o calvinismo podem encontrar espaço.

É bem verdade que a assembleia de Deus no Brasil é tradicionalmente arminiana, mas durante 100 anos ela nunca foi confessionalmente arminiana.  O que acontece é que, com o aumento de calvinistas dentro da assembleia de Deus (como nunca visto antes), o que se tem é uma guerra soteriológica, e não de identidade. Se há problema na identidade assembleiana, o problema não deve ser procurado no calvinismo, mas em outros fatores importantes, alguns dos quais já foi ventilado pelo autor deste blog e por outros irmãos da fé, inclusive pelo próprio pastor Altair Germano.

O propósito deste artigo é apenas criticar a atitude combativa e desnecessária vista em especial pela pessoa do amador pastor Altair, o qual muito já contribuiu em outras áreas para a fé pentecostal, mas que neste caso em particular, se afunda em uma controvérsia desnecessária e infantil, uma cruzada que não alimenta um espírito irênico no cristianismo protestante ortodoxo, erra o alvo e ataca quem não se deve atacar e fere quem não deve ser ferido.

Mas e quanto a visões teológicas distintas que autores não pentecostais promulgam contra a fé pentecostal, como John Macarthur e R. C. Sproul, serem publicadas pela editora confessional? A resposta a isso não é difícil, porém exige uma atenção maior, que não se dará neste, mas em outro artigo. O que se pode dizer simplesmente é que não há diretamente em Armínio uma conexão com a fé pentecostal. Argumentar em prol do arminianismo não é defender, de maneira sinônima, a fé pentecostal. Armínio, afinal, nunca defendeu a atualidade dos dons, e ao que parece, nunca pretendeu fazê-lo.

Soli Deo Gloria.

Notas:

1. ARMÍNIO, Jacó. As Obras de Armínio (Vol. II). Tr. Degmar Ribas. Rio de Janeiro: CPAD, 2015, p.23.
2. Pode-se tentar argumentar que Armínio não proíbe certa manifestação espiritual, desde que esta esteja em harmonia com  a Escritura. Porém, isso não é o mesmo que argumentar acerca da atualidade dos dons como defendido pela fé pentecostal. As manifestações espirituais aqui são vistas mais como exceção do que como regra. Na verdade, a própria confissão de Westminster, assim como Armínio, sujeita qualquer experiência, ou "espíritos particulares" (na tradução brasileira "opiniões particulares") a se sujeitarem à Bíblia. Assim como a confissão, Armínio quer defender a Escritura como suprema e suficiente em questões doutrinárias e da salvação apontando-a como a fonte da teologia, em contraste com a suposta autoridade papal ou qualquer manifestação espiritual. Tal tipo de opinião foi também defendida por puritanos; entre eles, destaca-se Richard Baxter, por exemplo. Para mais informações nesta questão, o leitor pode consultar a obra de Wayne Grudem, O Dom de Profecia: do Novo Testamento aos dias atuais.
3. Falei acerca disso em outro artigo, disponível no seguinte link: http://teologiapentecostal.blogspot.com.br/2014/06/as-origens-batistas-da-assembleia-de.html.
4.Disponível em: http://www.chamada.com.br/mensagens/calvinismo_dispensacionalismo.html.
5. Citado em MCGEE, Gary B.Panorama Histórico in: Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal. Tr. Gordon Chow.Rio de Janeiro: CPAD, 1996. p.17.

quarta-feira, março 15, 2017

Prepare-se para a exclusividade matrimonial


Existem muitas mulheres no mundo. Inteligentes, belas, atraentes… Mulheres que são capazes de levá-lo a sonhar alto. Bem alto. Mulheres que podem fazer seu coração acelerar, apenas com um olhar. Super poderosas, têm a habilidade de mudar vidas. Qual de nós não conhece o poder transformador do sorriso de uma bela garota? Dinheiro, conhecimento e diversão não proporcionam o prazer de sentir-se importante... amado.

Quando trata-se de amor, nós homens precisamos agir com bastante seriedade. Não apenas os nossos sentimentos mais profundos envolvem-se nisto; e, sim, também, o coração de uma linda mulher. Embora pareça simples, agir seriamente com mulheres não é fácil. Tendemos a ser egoístas. Tendemos a pensar no que é bom para nós, em nossos desejos e ponto final. Facilmente, parece não haver espaço para considerarmos o que elas pensam. Às vezes, fazer a pergunta “será que há interesse por parte dela também?”, para nós mesmos, é inconcebível.

Crescemos em uma cultura que prega o hedonismo. Nesta, a máxima é: “O meu prazer é tudo de que preciso.” Ensinam-nos que nosso prazer deve ser ilimitado e que não há regras para que possamos obtê-lo. Há algum tempo, li manchete sobre a famosa atriz Scarlett Johansson, segundo a qual ela teria declarado que “casamento monogâmico não é natural”. Antes de apontarmos para a ideia animalesca acerca do homem, envolvida nesta declaração, precisamos reconhecer que não estamos imunes a este tipo de pensamento. 

Infelizmente, grande parcela de nós homens já teve contato com pornografia. Desde os contaminados em pequena escala aos afetados em grande escala, todos já fomos confrontados com suas mentiras; em especial, com a de que temos de viver segundo nossos instintos. Tal pensamento leva ao perverso ensino desta maldita professora: “Quanto mais, melhor.” Por conseguinte, muitos acreditaram na necessidade de poder contar grande número de ex-namoradas. O que nos proporcionaria a possibilidade de olharmos para o espelho e dizer: “Sou 'pegador'.”

Se vivermos segundo a carne – parte de nosso ser que envolve nossa pecaminosidade –, teremos sérios problemas. No âmbito da vida amorosa, de que maneira jovens pervertidos lidariam com a multiplicidade de belas garotas no mundo? Segundo a lógica pecaminosa, cada faísca de paixão em nosso coração deve ser satisfeita. Dessa forma, não importa se somos namorados, noivos ou maridos de alguma mulher; havendo o desejo, nenhum relacionamento é tão sério que não possa ser desfeito.

Felizmente, o Criador da beleza e do prazer estabeleceu outro caminho. Deus estabeleceu outra maneira de lidarmos com nosso forte desejo sexual. Diferente do que o pai da mentira ensina ao mundo, o Senhor Deus não criou os impulsos sexuais para satisfação egoísta. Segundo as Escrituras Sagradas, o sexo foi criado para a união profunda de homem e mulher, de modo que eles se tornem “uma só carne”, dentro do contexto do santo matrimônio. O casamento é o pacto que tanto exige a manutenção do compromisso exclusivo com o cônjuge quanto define-o, claramente, como o único alvo de nossos esforços sexuais.

Para Deus, a exclusividade do relacionamento entre homem e mulher não é algo inóspito, sem prazer ou chato. Na verdade, é apenas no santo matrimônio que homem e mulher podem experimentar a liberdade e a beleza de ser uma só carne. As palavras inspiradas do rei Salomão devem ecoar constantemente em nosso coração:

“Bebe a água da tua cisterna e das correntes do teu poço. Derramar-se-iam por fora as tuas fontes, e pelas ruas, os ribeiros de águas? Sejam para ti só e não para os estranhos contigo. Seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua mocidade, como cerva amorosa e gazela graciosa; saciem-te os seus seios em todo o tempo; e pelo seu amor sê atraído perpetuamente” (Provérbios 5.15-19).

Se você é solteiro, prepare-se para o casamento. Isso envolve estar clamando a Deus por misericórdia e sabedoria para manter-se puro e para saber escolher uma mulher temente a Deus, a qual complementará sua caminhada rumo à eternidade. Ademais, preparar-se para o casamento exige a mortificação da carne e a negação das mentiras do diabo. Não trate o relacionamento amoroso como esporte. Lembre-se de que, dentre as inúmeras mulheres maravilhosas que existem na terra, Deus o chama para dedicar-se a uma apenas: sua futura esposa. Tal dedicação deve ser constante, por toda a vida. Como escreveu Douglas Wilson:1

“[…] Mais adiante no capítulo cinco de Efésios, Paulo diz aos maridos que amem a esposa como amam seu próprio corpo. A palavra cuidar nessa passagem significa literalmente manter aquecido. Consequentemente, um dos deveres fundamentais envolvendo o papel do marido é que ele mantenha sua esposa aquecida. Quando isso é feito, o resto do lar é aquecido. Mas como ele pode mantê-la aquecida? Perceba que nosso texto diz que devemos andar em amor. Uma esposa não se mantém aquecida no seguro amor de um marido se ele é inconstante em tal amor. Se é grosseiro ou a ignora, mas vez por outra mostra-se terno, não está andando em amor. O tipo de amor que Paulo exige aqui é constante. Ser um marido piedoso é ser um marido constante.”

Que Deus seja glorificado. 




Referência:

1. Douglas Wilson, em Reformando o Casamento: A Vida Conjugal Conforme o Evangelho. Centro de Literatura Reformada (CLIRE), p. 10-11.

sábado, janeiro 14, 2017

Internet: uma péssima companhia para momentos em família

É sexta-feira. O shopping está lotado. Depois de um bom tempo, finalmente, eles encontram uma mesa disponível. Marido, esposa e seus três filhos sentam-se próximos uns aos outros – pelo menos, aparentemente.

O líder do lar dá dinheiro para a esposa comprar o lanche; o caçula e a filha do meio vão juntos. O clima está perfeito para conversar com a primogênita. Por que não perguntar como anda o coração da filha? Ou por que não tratar das dificuldades na escola? Ter uma conversa descontraída e rir um pouco com a filhota também poderia ser uma boa pedida. Porém, uma tragédia acontece: o pai da família liga o tablet e começa a navegar na internet. Enquanto o pai está fixado em notícias irrelevantes, a filha fica olhando para o horizonte. Não há sequer uma palavra trocada entre os dois.  

A filha do meio retorna com um milk shake. O silêncio é quebrado por poucas conversas entre as irmãs. Para não dizermos que a interação do pai é zero, de vez em quando, ele toma um pouco do milk shake, sem tirar os olhos da tela do dispositivo eletrônico.

Os dois membros da família que faltavam retornam. O filho senta-se de frente para o pai. Entretanto, ironicamente, os dois não trocam nenhum olhar. O celular e os fones de ouvido roubam, completamente, a atenção daquele.

O passeio que deveria ser um momento de lazer familiar, infelizmente, tornou-se um momento lastimável.

                                                                             *

A cena descrita acima é verídica. Enquanto arriscava-me em comer um sushi (daqueles inteiramente crus) na companhia de minha noiva, acabei observando um pouco a família que estava perto de nós. Sinceramente, isto me deixou muito angustiado. Geralmente, os jovens e adolescentes são os mais antissociais nos passeios em família – o que também é um problema sério. Contudo, neste episódio de ontem, o pai era o pior de todos. Ele não tinha nem “moral” para repreender o filho atolado na internet…

Se não combatermos o vício no mundo digital (incluo-me nesta luta), nós e nossas famílias sofreremos (se é que já não estamos sofrendo) terríveis consequências.

Que Deus nos abençoe de modo que experimentemos as bênçãos descritas no Salmo 128:

"Bem-aventurado aquele que teme ao SENHOR e anda nos seus caminhos. Pois comerás do trabalho das tuas mãos; feliz serás, e te irá bem. A tua mulher será como a videira frutífera aos lados da tua casa; os teus filhos como plantas de oliveira à roda da tua mesa. Eis que assim será abençoado o homem que teme ao Senhor. O Senhor te abençoará desde Sião, e tu verás o bem de Jerusalém em todos os dias da tua vida. E verás os filhos de teus filhos, e a paz sobre Israel."

quinta-feira, janeiro 12, 2017

Manuscritologia do Novo Testamento (Resenha)

No ano de 2014, o mercado editorial brasileiro recebeu uma obra que trata de um assunto bem pouco explorado no Brasil: O estudo da manuscritologia, ou crítica textual bíblica; em especial no que tange ao exame do Novo testamento. Em Manuscritologia do Novo Testamento: História, Correntes Textuais e o Final do evangelho de Marcos, o pastor presbiteriano Paulo Anglada explora questões difíceis e técnicas em um linguajar simples e direto, sem perder a erudição e muito menos a ortodoxia protestante de linha Reformada, com isso o leitor é desafiado a lidar com a intrincada história dos manuscritos que compõem o Novo Testamento.

           
  O livro do Reverendo Anglada evita o tecnicismo constante nessa área, o que geralmente desestimula os leitores em geral e até mesmo seminaristas. Após breve introdução, o primeiro capítulo lida com a História do Texto, lidando com as mais importantes descobertas de manuscritos dos quatro primeiros séculos, como também com o surgimento do primeiro texto impresso, feito pelo humanista Erasmo de Roterdam e publicado em 1516 e a sua “rival”, a Poliglota Complutesiana, além das edições subsequentes feitas por vários homens como Robert Stephanus, Theodore Beza, os irmãos Elzevir, o que veio a ser chamado de Textus Receptus. Após esse período, surgiram outros textos, que cada vez mais se afastaram do Textus Receptus até a publicação do Texto de Westcott e Hort, que se baseou em dois manuscritos provenientes de uma região: O Egito. Tais manuscritos em muito se diferiam dos manuscritos usados por Erasmo, que em geral representavam a maioria dos manuscritos gregos do Novo testamento, que formavam o tipo de Texto Bizantino/Siríaco. Com isso, surgiram as mais variadas traduções, todas adotando o texto de Westcott e Hort como base (que depois foi aperfeiçoado através dos trabalhos de críticos textuais como Kurt Aland e Bruce Metzger). Por fim, o primeiro capítulo fecha com as reações modernas do defensores do Textus Receptus: existem duas alas, a erudita e a popular. Da primeira, há nomes como Edward Hills e Theodore P. Letis, e da segunda, mais fundamentalista e radical, nomes como D. A. Waite e Peter Ruchnan. Outra reação aos textos críticos de Westcott/Hort (atualmente representado pelas modificações de Ebheard Nestle e Kurt Aland) foi o surgimento da teoria do Texto Majoritário moderno, com proponentes como Zane Hodges, Wilbur Pickering e Jakob Van Bruggen.
            
Nos demais capítulos há uma breve análise de cada corrente textual existente. Cada capítulo lida com as teorias textuais a partir de análise das obras de seus representantes mais respeitados: os defensores do Textus Receptus (capítulo 2), os defensores do texto Eclético/crítico (capítulo 3) e os defensores do Texto Majoritário, do qual o próprio Anglada é um defensor (capítulo 4). Por fim, há um estudo detalhado sobre o final do evangelho de Marcos, rejeitado pelos críticos Textuais modernos como inautêntico (capítulo 5). 
            
A tese de Anglada é clara: “Deus não confiou o texto das Escrituras aos caprichos da história. Ele determina cada acontecimento da história com vistas a consecução de seus propósitos eternos – inclusive, e especialmente, aqueles que dizem respeito à preservação da sua Palavra” (p. 14). Anglada encontra dificuldade com as teorias de Westcott e Hort, mostrando que o pressuposto desses eruditos vai contra as evidências de transmissão textual. Sendo que um dos grandes problemas é que tais críticos veem a Bíblia como um livro comum, e sua transmissão como normal, assim como elaboraram teorias naturalistas acerca do texto a partir de dois manuscritos extremamente conflitantes entre si (só nos Evangelhos são mais de 3.000 vezes). A crítica de Anglada, detalha no capítulo 3, é forte e certeira contra a corrente textual que domina os Textos gregos do Novo Testamento e as traduções modernas. O capítulo 4 se distingue de certa forma dos demais, pois ao analisar a Corrente Textual que defende o chamado Texto Majoritário, nota-se a identificação textual do autor, que nos dá uma excelente definição acerca da visão textual Majoritária:

“A maneira, entretanto, pela qual Deus preserva a Palavra inspirada, não é explicitada na Bíblia, devendo ser concluída por investigação adequada das evidências históricas. Na concepção dos defensores do texto majoritário, as evidências históricas indicam que a preservação do texto do Novo testamento não ocorreu através da preservação sobrenatural dos autógrafos, nem pela inspiração dos copistas, guardando todos eles de erro, nem de uma determinada edição do Textus Receptus, nem em um número não representativo de manuscritos contraditórios provindos de uma única região. Para eles, o texto original foi preservado na grande massa de manuscritos de todos os tipos, procedentes de lugares variados, ao longo dos séculos” (pp.125-126).

            Após tratar sobre os métodos de investigação textual dos proponentes do texto majoritário, o autor também está ciente de alguns problemas relacionados a essa teoria. Por fim, o capítulo 5 trata acerca da problemática envolvendo o chamado “final longo de Marcos”, onde o autor defende com vigor o final tradicional de Marcos, a partir da tradição majoritária. Na conclusão, faz-se uma breve recapitulação do que foi tratado, chegando às considerações finais. Há ainda dois apêndices, o primeiro mostrando a história do Texto Impresso e o segundo apresentando sugestões para pesquisa direcionada a estudantes de bacharelado e mestrado. Dentre as sugestões destacam-se as pesquisas sobre a manuscritologia na Idade média e dentre os puritanos, finalizando, assim, a obra.

- Análise:
           
            A obra de Anglada apresenta uma qualidade impressionante no que diz respeito a uma visão que honra as escrituras, mas não deixa de estar sujeita a críticas em certas afirmações. Vejamos pontos positivos e negativos a seguir.

I. Pontos positivos:

a) Primeira obra publicada no Brasil a defender o texto Bizantino: Em um mercado saturado com obras que defendem a baixa-crítica do novo testamento segundo os padrões de Westcott e Hort, a obra de Anglada é um contra-ponto adequado e equilibrado, dentro de uma perspectiva reformada-confessional, algo raro no Brasil. A maioria das defesas em prol do texto-tipo bizantino são de fundamentalistas, que defendem de maneira implacável o Textus Receptus.

b) Apresentação clara das três perspectivas quanto ao texto do Novo Testamento: o pastor Anglada mostra, de maneira clara e sistemática, as três visões textuais acerca do texto do Novo Testamento: os defensores do Textus Receptus, do texto Eclético e do Texto Majoritário (sendo este último uma atualização da primeira). Em geral, a obras que defendem o texto crítico colocam os proponentes do Textus Receptus e Majoritário no mesmo grupo. Ainda que as semelhanças sejam enormes entre os dois grupos, e haja em certas ocasiões uma cooperação mútua, há diferenças evidentes nas metodologias de cada um. Basta consultar as obras de Frederick Nolan e Edward Hills (que defendem o Textus Receptus) e a visão de Zane Hodges e Maurice Robinson (que defendem o Texto Majoritário em sua configuração moderna) para ver a diferença entre as escolas.

c) Correta diferenciação entre os defensores do Textus Receptus: o autor consegue notar a diferença entre os defensores eruditos moderados do Texto Recebido, como Edward Hills e os de linha radical como D. A. Waite, Peter Rucknahm e Gail Riplinger.  Algo também não diferenciado pelo opositores do Texto tradicional.

d) Excelente crítica quanto à escola histórico-crítica e a produção do texto crítico do Novo Testamento:  O Brasil carecia de uma obra que combinasse tanto questões técnicas quanto uma defesa firme do Texto Grego Tradicional, partida de um erudito que valoriza a piedade cristã e o método histórico-gramatical de interpretação das Escrituras. Com exceção da obra de Wilbur Pickering, o mercado brasileiro está repleto de obras que defendem o método histórico-crítico, dentre os quais se destacam Wilson Paroschi, Kurt Aland, Daniel Wallace e Bruce Metzger.  O livro de Anglada faz uma crítica respeitosa, porém firme, a um criticismo textual que não honra as Escrituras como Palavra de Deus. Só esse motivo já é suficiente para considerar tal obra como importante.

II. Pontos negativos:

a) A Falta de uma análise mais justa acerca da obra de Edward Hills: Anglada faz crer que os defensores do Textus Receptus não analisam as evidências. Mesmo fazendo uma diferença entre os defensores moderados e radicais do Textus Receptus, em sua crítica à corrente textual, ele parece jogar todos no mesmo pacote, mesmo Edward Hills. Ainda que reconhecendo a excelente erudição de Hills (graduado em latim e Phi Beta Kappa da universidade de Yale, bacharel em Teologia pelo Westminster Theological Seminary, mestre em teologia pelo Columbia Theological Seminary e doutor em Crítica textual pela Universidade de Harvard), as críticas que faz a Hills são pungentes:

 “A defesa do Textus Receptus fundamenta-se e é inteiramente explicada pela doutrina da preservação providencial. Entretanto, visto que as escrituras não declaram explicitamente a preservação de um determinado tipo de texto (no caso, do Textus Receptus), o uso da doutrina é muitas vezes abusivo e injustificado. A aceitação das explicações de Hills e de outros proponentes do TR é matéria de pura fé na interpretação que eles oferecem” (Anglada, p.94).

Há muito que se pode dizer em defesa de Hills (e outros defensores do Textus Receptus), que abraça o Textus Receptus como um texto legítimo. Partamos para alguns deles:

a.1) A filosofia cristã de Hills é Reformada e Pressuposicional.

            Como estudante do Westminster Seminary, Hills foi treinado pelo célebre Cornelius Van Till, que defendia uma forma distinta de apologética: A apologética pressuposicional, que ao contrário da clássica ou evidencialista, possui o ponto de partida para uma cosmovisão saudável a pressuposição do Deus Trino como revelado na Escritura, atentando nas proposições nela contidas. No dizer de Hills: “nas escrituras, Deus revela: a si mesmo, não meras evidências da sua existência, não meras doutrinas acerca de si mesmo, não uma mera história de seu lidar com os homens, mas A SI MESMO” (The King James Version Defended, p.4) e ainda: “As escrituras, portanto, são o fundamento da fé. Nelas a revelação de Deus acerca de si mesmo não é obscurecida pelo erro humano” (Believing Bible Study, p.4). Haja vista que as Escrituras declaram claramente que seriam preservadas no passar das eras, de maneira perfeita pelo Senhor (Mt 24.35), o que nos leva a atentar para a preservação divina através da história do texto bíblico, algo que está em sintonia com o que se encontra nas confissões de fé de Westminster, Londres e Savoy. Por isso, o que Hills faz é integrar pressupostos bíblicos (a lógica da fé) com a história do texto, todavia, o faz sem torcer as evidências a seu favor. Pelo contrário, como crítico textual habilitado, Hills mostra que a questão não é entre os que defendem o Textus Receptus de maneira cega e os defensores do Texto Eclético (e até mesmo do Majoritário), com base do estudo científico, mas sim na interpretação que se dá acerca das evidências.
Tratando acerca dos estudos feitos dentro da perspectiva naturalista, Hills comenta: "Há dois métodos de Criticismo Textual do Novo testamento, o método cristão consistente e o método naturalista. Estes dois métodos lidam com o mesmo material, os mesmos manuscritos gregos, e as mesmas traduções e citações bíblicas, mas eles interpretam esse material de forma diferente” (King James Version Defended, p.3) e acrescenta: “Nos estudos bíblicos, na filosofia, na ciência, e em qualquer outro campo do saber devemos começar com Cristo e aí então trabalhar nossos princípios básicos de acordo com a lógica da fé. Este procedimento nos mostrará como utilizar o aprendizado vindo de eruditos não-cristãos de uma forma que nos aproveitemos de seus estudos” (King James Version Defended, p. 114).  Rebatendo a afirmação que isso leva a um agnosticismo intelectual, Hills afirma: “Isso significa que nos tornamos obscurantistas? e perdemos todo o nosso interesse nos estudos textuais do Novo testamento? Nós franzimos o cenho no estudo dos manuscritos do novo testamento e desencorajamo-lo por medo de provar que estamos errados? de modo nenhum! Pelo contrário, congratulamo-nos com a investigação honesta dos documentos do novo testamento, tanto mais que os resultados dos últimos 300 anos de tais estudos, bastante interpretados, apoiaram as reivindicações do Texto Tradicional e do Textus Receptus” (Believing Bible Study, p.214-215).                                                           

a.2) Hills não defende uma visão perfeccionista do Textus Receptus.

Ainda que possa haver uma tendência em Hills de defender o Textus Receptus de forma indiscriminada, ele claramente mostra que não concorda com as emendas conjecturais feitas por Calvino e em especial por Theodore Beza na publicação de seu texto grego. Para ele, o Textus Receptus não se reduz a uma única edição, mas a um conjunto de várias edições que apresentam essencial e substancialmente o mesmo texto, ainda que haja pequenas variações em um lugar e outro. Acerca da presença de algumas variantes textuais, Hills comenta:

“... Deus não revela todas as verdades com igual clareza. Na crítica textual bíblica, como em qualquer outro departamento do conhecimento, ainda há alguns detalhes em relação aos quais devemos nos contentar em permanecer incertos. Mas a providência especial de Deus tem mantido estas incertezas para baixo a um mínimo. Portanto, se acreditarmos na preservação providencial especial das Escrituras e fizermos deste o princípio principal de nossa crítica textual bíblica, obtemos certa certeza, toda a certeza que qualquer homem pode obter, toda a certeza de que precisamos” (King James Version Defended, p.224).
   
a.3) A visão de Hills é Reformada e a estrutura de seu pensamento segue a linha de Cornelius Van Till.

Tanto no Livro The King James Version Defended, quanto em sua obra gêmea Believing Bible Study, Hills deixa claro que, para se abordar o material acerca do criticismo textual, não se apode adotar uma perspectiva naturalista. Aqui vemos a perspectiva da apologética pressuposicional na defesa dos manuscritos do Novo Testamento.

b) Anglada apresenta uma opinião comum acerca de Erasmo e da publicação do texto grego, em especial sobre Apocalipse: O pastor Anglada acaba repetindo alguns mitos acerca do último capítulo do livro de apocalipse no Texto grego editado por Erasmo, onde supostamente o erudito Holandês retraduziu o texto da vulgata para o grego. O grande problema é que não há nenhuma evidência concreta que esse tenha sido o caso, e tal história vem sendo amplamente contestada por alguns estudiosos modernos, juntamente com os chamados “mitos erasmianos”, dentre os quais destacam-se a história da “pressa” em Erasmo de publicar seu texto grego, a história do Comma Johanneum (1 Jo 5.7) no Texto Recebido, os poucos manuscritos utilizados por Erasmo, etc. Tais mitos são analisados detalhadamente por Jeff Ridlle, pastor reformado e estudioso de questões textuais, podendo serem estas lidas com detalhes aqui.

c) A visão do Texto Majoritário não é necessariamente Reformada.

Ainda que colocada como uma posição totalmente reformada e adotada por alguns professores reformados como Jakob van Brueggen, a perspectiva do texto Majoritátio surgiu dentro de um contexto dispensacionalista de alguns professores do Dallas Theological Seminary, como Zane Hodges, William Farstard e Wilbur Pickering. Ainda que tais homens sejam conhecidos por sua piedade e teologia conservadora, a visão que mais se aproxima da perspectiva reformada, e que está de acordo com a confissão de fé de Westminster, é a adotada por Hills.

d) Pouco realmente se dá valor às pressuposições na hora da metodologia do estudo dos manuscritos, fazendo com que a estrutura se assemelhe à da crítica, no que tange à linha de estudos.

Ainda que haja méritos notáveis na posição do Texto Majoritário (que muito se assemelha a posição do Textus Receptus), o método em si acaba por também querer passar uma visão de neutralidade e objetividade científica, e também acaba por tentar, ainda que em menor escala, fazer uma reconstituição do texto original do Novo Testamento em grego. Tal perspectiva passa uma ideia de erudita e agrada a ouvidos acadêmicos, porém não necessariamente está totalmente de acordo com os princípios da Palavra de Deus. O conselho de Hills é precioso aqui: “O criticismo textual do Novo Testamento do homem que crê na inspiração e preservação providencial das Escrituras como verdadeiras difere daquele que não crê assim... o homem que abraça essas doutrinas como verdadeiras é incoerente se ele não as der um lugar proeminente em seu tratamento do texto do Novo testamento, um lugar tão proeminente que faz com que criticismo textual do Novo testamento seja diferente do criticismo de livros antigos, pois se essas doutrinas são verdadeiras, elas demandam tal lugar” (King James Version Defended, p. 3).

- Conclusão:


A despeito de certas incoerências na defesa de Anglada do Texto Majoritário, e a falta de observação nos detalhes concernentes à visão Reformada do Textus Receptus, a obra em si tem muitas qualidades e é uma boa fonte de consulta para seminaristas, professores de escola dominical e pastores - além do público geral. É um alívio editorial em um mercado saturado de obras que promovem o texto crítico.