segunda-feira, junho 18, 2018

O que Armínio era - e os assembleianos não são...



Prosseguindo com as polêmicas do post anterior, o pastor Altair Germano, o atual paladino da "herança arminiana" e guardião dos bons costumes nas Assembleias de Deus, continua a disparar contra a "influência calvinista" dentro da Assembleia de Deus e sua luta pela casa publicadora dentro da denominação. Mas do que se trata a herança arminiana? Quem foi Jacó Armínio? Se fizessem tal tipo de pergunta à grande maioria dos assembleianos cerca de cinco a sete anos atrás, apenas os especializados em teologia  e crentes mais estudiosos poderiam responder com certa precisão. Muito da vida de Armínio passou a ser descoberto apenas recentemente, com a publicação de obras biográficas e da  publicação de suas Obras  Obras pela CPAD. Hoje a propaganda do momento é a "herança arminiana"a ser preservada pela denominação. Porém, antes que possamos fazer qualquer defesa de tal herança, vejamos quem Jacó Armínio era teologicamente, e os assembleianos não são:
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a) Armínio era Pedobatista:

Como um bom membro da Igreja Reformada Holandesa, Armínio nunca se posicionou contra o batismo infantil e por aspersão em suas obras. Como um bom adepto da teologia da Aliança, Armínio foi categórico:

"O objeto deste batismo não é real, mas apenas pessoal, isto é, todo o povo do concerto de Deus, quer sejam adultos ou crianças, com a condição que que as crianças sejam filhas de pais que façam parte do novo concerto, ou se um de seus pais estiver entre o povo do concerto de Deus, porque a ablução no sangue de Cristo lhes foi prometida e, também, porque, pelo Espírito de Cristo, eles estão enxertados no corpo de Cristo". (Obras de Armínio, Vol. 2.p.144).

 A Assembleia de Deus, todavia, desde o início seguiu o credobatismo, também chamado de Batismo de Crentes, algo reafirmado na Declaração de Fé assembleiana. Vejamos o que a Declaração de fé afirma:

"Não aceitamos nem praticamos o batismo infantil por não haver exemplo de batismo de crianças nas Escrituras e por não ser o batismo um meio da graça salvadora, ou sinal e selo da aliança, que substitui a circuncisão dos israelitas. Também por não ser possível à criança ter consciência de pecado, condição necessária para    que    ocorra    arrependimento.    As    crianças,    em estado pueril, não preenchem esses requisitos. Sobre a circuncisão, o pensamento cristão bíblico é: “em Cristo Jesus nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura” (Gl 6.15). Cremos e ensinamos que o batismo é apenas para os que primeiramente se arrependem dos seus pecados e creem em Jesus,4 sendo também necessário pedir para ser batizado: “Eis aqui água; que impede que eu seja batizado? E disse Filipe: É lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus. E mandou parar o carro, e desceram ambos à água, tanto Filipe como o eunuco, e o batizou” (At 8.36-38). Assim, os candidatos ao batismo precisam exercer o arrependimento e a fé. O Novo Testamento mostra o batismo posterior à    fé. Isso é visto no dia de Pentecostes e na campanha evangelística de Filipe em Samaria: “como cressem em Filipe, que lhes pregava acerca do Reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, se batizavam, tanto homens como mulheres” (At 8.12). Esses fatos não deixam margem para o batismo infantil "(Declaração de fé. Sobre o Batismo Infantil. p. 129).


b) Armínio era Aliancista:

Ainda que Armínio não escreveu algo diretamente escatológico, seguindo sua linha aliancista  no caso do pedobatismo,  pode-se concluir seguramente que Armínio era um tradicional amilenista na escatologia. Nesta visão, não há espaço para arrebatamento "secreto", pré-tribulacionista, nem tampouco um milênio literal. A assembleia de Deus, ao contrário, tradicionalmente adotou o dispensacionalismo, que afirma tudo o que o amilenismo nega. Interessantemente, o próprio dispensacionalismo surgiu entre calvinistas¹.

c) Armínio era Cessacionista:

Talvez a maior incoerência para os defensores da tradição arminiana dentro das assembleias de Deus seja essa: Armínio nunca defendeu a atualidade dos dons espirituais, pelo contrário. Seguindo um tipo de raciocínio semelhante ao encontrado em muitos reformados, Armínio categoricamente negou a atualidade dos dons espirituais e nem sequer cogitou a ideia do batismo com o Espírito Santo posterior à conversão. Armínio foi claro:

"Uma vez que iniciemos a defesa dessa perfeição [da Escritura] contra inspirações, visões, sonhos e outras coisas novas e entusiásticas, afirmamos que, desde a época em que Cristo e seus apóstolos peregrinaram pela terra, nenhuma inspiração de qualquer coisa necessária para a salvação de qualquer indivíduo ou da igreja foi feita a nenhuma pessoa ou congregação de pessoas, coisa essa que não esteja, de uma maneira plena e extremamente perfeita, contida nas Sagradas Escrituras." (Obras de Armínio Vol. 2.p. 23)


Mas aí, o leitor pode objetar que, a bem da verdade, a Assembleia de Deus segue a soteriologia de Armínio, não outros aspectos de sua teologia. Bem,  a grosso modo essa declaração pode soar como verdadeira, porém nem mesmo isso se dá de maneira precisa. Em seu esquema teológico, Armínio não nega a doutrina dos decretos de Deus (elemento característico da teologia reformada), mas os reformula com uma estrutura sinergística. Nem a grande maioria dos assembleianos e nem mesmo a Declaração de Fé segue o esquema proposto por Armínio. Na verdade o que temos é a versão arminiana modificada por John Wesley, onde não se estabelecem decretos divinos na eternidade. Um detalhe importante é que Armínio pareceu inclinado a defender a doutrina da perseverança do santos, e categoricamente afirme que nunca ensinou que o crente possa perder totalmente a sua salvação, algo que a Declaração de Fé assembleiana nega veemente. A declaração de Armínio pode ser vista no 1° Volume de suas Obras:

Embora eu aqui, aberta e sinceramente, afirmo que eu nunca ensinei que um verdadeiro crente pode, total ou finalmente, abandonar a fé, e perecer; todavia não nego que haja passagens da Escritura que me parecem apresentar este aspecto; e as respostas a elas que tive a oportunidade de ver não se mostraram, em minha opinião, convincentes em todos os pontos. Por outro lado, certas passagens são fornecidas para a doutrina contrária [da perseverança incondicional] que merecem especial consideração

A Declaração de Fé profere uma visão acerca da apostasia nos moldes wesleyanos, mas sua formulação chega a uma estranheza que surpreenderia até John Wesley:

"Rejeitamos a afirmação segundo a qual “uma vez salvo, salvo para sempre”, pois entendemos à luz das Sagradas Escrituras que, depois de experimentar o milagre do novo nascimento, o crente tem a responsabilidade de zelar pela manutenção da salvação a ele oferecida gratuitamente: “Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus vivo” (Hb 3.12). Não há dúvidas quanto à possibilidade do salvo perder a salvação, seja temporariamente  ou eternamente. Mediante o mau uso do livre arbítrio, o crente pode apostatar da fé, perdendo, então, a sua salvação: “Mas, desviando-se o justo da sua justiça, e cometendo a iniquidade, fazendo conforme todas as abominações que faz o ímpio, porventura viverá? De todas as justiças que tiver feito não se fará memória; na sua transgressão com que transgrediu, e no seu pecado com que pecou, neles morrerá” (Ez 18.24). Finalmente temos a advertência de Paulo aos coríntios: “Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia” (1 Co 10, 12). Aqui temos mencionada a real possibilidade de uma queda da graça.51 Assim, cremos que, embora a salvação seja oferecida gratuitamente a todos os homens, uma vez adquirida, deve ser zelada e confirmada" (Declaração de fé. É possível a perda da Salvação. p.114).

Todos esses fatores revelam claramemte que não há necessariamente, nenhuma simbiose entre o arminianismo e o pentecostalismo, pelo menos não no que diz respeito ao pentecostalismo assembleiano. .

- Que diferença isso faz?

Muita, a bem da verdade. Como já escrevi em artigos anteriores, o que define ser pentecostal e assembleiano não é afirmar calvinismo ou arminianismo. A Assembleia de Deus não enfrenta uma cise de identidade por causa do calvinismo, e sim um crise de identidade por não saber o que é pentecostalismo. Se alguém perguntar para a maioria dos jovens pentecostais entre 20 e 30 anos quem foi Myer Perlman, Donald Gee ou Stanley Horton a ignorância será memorável. 

Ora, publica-se uma obra com tantas distinções doutrinárias como a de Armínio, que não superam sua importância teológica, não há motivo para temer obras publicadas por calvinistas, pois ainda que possuam certa distinção teológica, não contribuem para a igreja de Cristo? Quem poderá negar o valor das obras de Nancy Pearcey e R. C. Sproul para a apologética por exemplo? Ou Josefo e Eusébio para a história do Cristianismo? Campenhausen para a patrística? Negar o valor de tais obras devido seus autores serem de outra linha teológica é alienação espiritual e suicídio intelectual.

No que tange à CPAD, há espaço sim para publicações evangélicas de ambos os lados teológicos. As possíveis distinções autorais podem ser reparadas com simples notas de rodapé editorais, como as que a editora fez na obra A Bíblia Explicada, de S. E. McNair. Publique-se Lutero, Calvino, Armínio, Wesley, Spurgeon. Certamente todos nós seremos abençoados em Cristo.

Soli Deo Gloria.

Notas:

1. Acerca da origem calvinista no dispensacionalismo, leia o artigo " A Herança Calvinista do Dispensacionalismo" de Thomas Ice, disponível aqui: https://www.chamada.com.br/mensagens/calvinismo_dispensacionalismo.html

2. As citações dos escritos de Armínio são da tradução feita pela CPAD, porém neste último utilizei a feita pelo irmão Clóvis Gonçalves do blog  Cinco Solas: http://www.cincosolas.com.br/2008/08/arminianos-ouam-armnio.html.

sexta-feira, junho 15, 2018

Entre Calvinismo e Arminianismo Assembleiano: A questão da CPAD


Em tempos de Copa do Mundo, a  última coisa que pensei em escrever seria sobre a polêmica envolvendo o calvinismo e arminianismo no meio assembleiano-pentecostal. Porém, como em um artigo anterior eu  disse que voltaria a explorar esse assunto, a época atual se mostra propícia para tal. Mais uma vez, diga-se de passagem, a figura do pastor Altair Germano encabeça um vigoroso ataque contra a publicação de obras calvinistas na Casa Publicadora da Assembleia de Deus (CPAD). Dessa vez o alvo para o chumbo quente de Altair não é ninguém menos que Charles Spurgeon. Sim, caro leitor, lestes bem: o alvo agora é o considerado o maior pregador do Cristianismo (depois de João Crisóstomo): Charles Spurgeon.

Recentemente a CPAD publicou aquela que é considerada a Magnum Opus de Spurgeon: "Tesouros de Davi", um extenso comentário sobre o livro dos Salmos, voltados para a aplicação prática, pregação e devocional. Tal obra, inédita em língua portuguesa, deveria certamente ser considerada um marco editorial para a Casa Publicadora, porém Altair não poupou críticas a tal publicação, pois a considera  uma erva daninha às Assembleias de Deus no Brasil, herdeira da tradição teológica de Jacó Armínio (um nome desconhecido para uma grande maioria de assembleianos, até recentemente). Em um post em seu perfil do Facebook, o pastor Altair dispara: "O próprio Charles Spurgeon, autor da obra, chegou a declarar que o deus dos arminianos (nós assembleianos somos soteriologicamente armínio-wesleyanos) não era, nem nunca seria o seu Deus...". De fato, como é comum na vida de pregadores, Spurgeon disse coisas aqui e ali que sem dúvida provocariam (e de fato provocaram) controvérsias. Spurgeon começou sua vida de pregador saindo da adolescência, assumindo uma considerável igreja no início de seus vinte anos.  No início de seu ministério, Spurgeon proferira fortes ataques contra os arminianos e exaltação do calvinismo. Todavia, esse não é o quadro absoluto da história. Como nos conta Iain Murray, em sua obra Spurgeon versus Hipercavinismo: A batalha pelo verdadeiro evangelho(PES)  que com o passar do anos Spurgeon "deixou grandemente  de lado a prática de chamar outros cristãos de 'hipercalvinistas' ou de 'arminianos'. Os termos podem não ser depreciativos, porém nas controvérsias eles logo começam a carregar esse sentido e dessa forma podem alienar os cristãos a quem são aplicados..." e acrescenta " Spurgeon, como todos os filhos dos homens, tinha que aprender humildade, e ele nem sempre esteve isento de culpa com relação a isto em seus primeiros anos, mas lhe foi dado ver que um sistema que procurava atribuir tudo à graça de Deus tinha confiança demais nos poderes da razão". Ao analisar tais declarações, devemos lembrar que em debates polêmicos, muitos arminianos também não estão isentos de afirmações descabidas e exageradas.

Quando se analisa a exclusão sectária de qualquer obra de cunho não-aminiano da CPAD, não serão somente obras de presbiterianos e batistas rígidos que serão excluídas, mas boa parte do catálogo da Casa, dentre tais obras se incluem os livros de Norman Geisler ("tomista" evangélico- Batista) e também:

-"Mártires do Coliseu", de A. J. O'Reilly (Sacerdote Católico),

- "O Peregrino", de John Bunyan (Batista),

- "O Treinamento dos Doze", de A. B. Bruce (Presbiteriano calvinista, mais tarde liberal),

- "História dos Hebreus", de Flávio Josefo (Judeu - traduzido pelo padre Vicente Pedroso).

- "Os Pais da Igreja", de Hans Von Campehausen (neo-ortodoxo?),

- "História de Israel", de Eugene H. Merril (Batista Calvinista),

 - "História eclesiástica" de Eusébio de Cesaréia (católico oriental),

 - "Quem é você para julgar?" de Erwin Lutzer (Batista Calvinista).

Como se pode notar, tal lista abrange obras clássicas que beneficiaram toda a igreja brasileira no decorrer dos anos (a despeito da posição teológica ou até mesmo heterodoxia em alguns casos). Retirar tais obras do catálogo da casa é insensatez e presunção editorial. Quando uma editora se concentra em produzir apenas um tipo de literatura , é de se esperar que o sucesso seja "explosivo" no início,  porém com o passar dos anos, a produção venha a ter considerável queda e então a editora deve partir para uma renovação. Editoras como a Reflexão e Carisma podem sofrer desse mal daqui a alguns anos.

Com relação a publicação de obras calvinistas pela CPAD e sobre o calvinismo no meio assembleiano já escrevi com mais detalhes  em artigos anteriores (acesse clicando aqui e aqui), porém digo e repito: O problema que se enfrenta hoje nas Assembleias de Deus não é o calvinismo, mas sim três fatores: analfabetismo bíblico (incluindo a doutrina pentecostal), legalismo e política eclesiástica. Enquanto tais fatores prevalecerem, tal denominação começa a andar em círculos, quer seja calvinista, quer arminiana. Isso é algo que obreiros assembleianos, calvinistas ou arminianos, precisam atentar.


Soli Deo Gloria

sábado, abril 21, 2018

A necessidade do choro diante da morte

"Jesus chorou", relata o apóstolo João [1]. E isto é desconcertante. Muito. Para nós que vivemos em uma geração que despreza o choro, a atitude do Senhor Jesus diante da realidade da morte de Lázaro é perturbadora. Afinal, por que Jesus chorou -- visto que ele sabia de que Lázaro ressuscitaria a alguns minutos?

Pense comigo. Segundo os sermões fúnebres que são comumente ministrados em muitas das igrejas frequentadas por nós, Jesus não teria razão alguma para chorar.

Por que Jesus age contrariamente ao padrão de muitos pastores modernos que nem aparentam contrição? Por que o Senhor Jesus moveu-se intimamente em face da tristeza de Maria e das pessoas que a acompanhavam [2], mesmo depois de ter falado à Marta que Lázaro ressuscitaria [3]? A razão é simples: a morte é uma desgraça. A morte é consequência da desobediência de nosso pai Adão [4]. Assim, ela não faz parte do propósito original de Deus para o homem.

Diante disso, necessitamos reafirmar a malignidade da morte e a realidade dela como intrusa na criação. Porque, quer queiramos ou não, apenas refletindo acerca do sofrimento resultante da morte de cada ser humano, poderemos contemplar o poder do Senhor Jesus como Redentor. Ele veio para desfazer as obras do diabo e para aniquilar a morte. A morte é a última inimiga a ser vencida por Ele [5].

O choro de um cristão não deve ser desprovido de esperança, mas também não deve ser trivial. Na verdade, o choro de um cristão tem de testemunhar de boa teologia. Como dizem as sagradas Escrituras: "Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram." [6]

Por isso, precisamos imitar a atitude do Senhor Jesus. Para tal, precisamos de bom entendimento de como a morte se relaciona com a criação, queda, redenção e consumação. Lembrando-nos de que a má teologia não é capaz de consolar. Seja pela trivialização da morte (enfatizando a ressurreição em demasia) ou pelo desespero diante dela (enfatizando a queda demasiadamente), a péssima teologia não pode dar o quadro geral para quem chora.

No entanto, a boa teologia permite que os cristãos chorem uns com os outros, tal como ensinado pelo apóstolo Paulo. Não falo de simplesmente mandar mensagens de pêsames no Facebook; falo de estar junto com o que chora, em carne e osso. Apenas assim, estaremos verdadeiramente chorando com os que choram e testemunhando de teologia saudável.

Que Deus seja glorificado.


Referências:

[1] Jo 11.35.
[2] Jo 11.33.
[3] Jo 11.23.
[4] Rm 5.12.
[5] 1 Co 15.26.
[6] Rm 12.15.

sexta-feira, março 30, 2018

Ele clamou em nosso lugar

"E desde a hora sexta houve trevas sobre toda a terra, até à hora nona. E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni; isto é, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? E alguns dos que ali estavam, ouvindo isto, diziam: Este chama por Elias, e logo um deles, correndo, tomou uma esponja, e embebeu-a em vinagre, e, pondo-a numa cana, dava-lhe de beber. Os outros, porém, diziam: Deixa, vejamos se Elias vem livrá-lo. E Jesus, clamando outra vez com grande voz, rendeu o espírito. E eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo; e tremeu a terra, e fenderam-se as pedras; e abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos que dormiam foram ressuscitados; e, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição dele, entraram na cidade santa, e apareceram a muitos. E o centurião e os que com ele guardavam a Jesus, vendo o terremoto, e as coisas que haviam sucedido, tiveram grande temor, e disseram: Verdadeiramente este era o Filho de Deus. E estavam ali, olhando de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galiléia, para o servir; entre as quais estavam Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu" (Mateus 27.45-56).

Jesus foi desamparado. Na cruz do calvário, o Filho de Deus encarnado experimentou as piores consequências do pecado: a ira e o afastamento de Deus. Ele jamais pecou (Hb 4.15), porém ele foi feito pecado por nós (2 Co 5.21). O imaculado cordeiro de Deus levou sobre si os nossos pecados (Is 53.4,5) e morreu substitutivamente por nós -- no lugar do povo de Deus.

Se o Senhor Jesus não tivesse efetuado eterna redenção na cruz, nós permaneceríamos afastados de Deus -- sem o favor paternal do santo Deus. Veja bem: nem sequer clamaríamos "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?", visto que já estávamos condenados e longe da comunhão salvífica do Senhor (Jo 3.18). Pela misericórdia do Deus triúno, o Messias prometido cumpre o clamor profetizado no salmo 22: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que te alongas do meu auxílio e das palavras do meu bramido?" (Sl 22.1)

O Redentor, o Senhor Jesus Cristo, é o único que pode nos livrar da ira e do afastamento da presença de Deus. É apenas por meio dele, confiando nele de todo o coração, que podemos nos achegar a Deus favoravelmente. Sem a fé em Cristo, teremos de lidar com o juiz de toda a criação, o próprio Deus, com base em nossas próprias obras. No entanto, quem de nós pode subsistir diante da justiça do Deus eterno? Somente quem é limpo de mãos e puro de coração pode adentrar à presença de Deus com segurança (Sl 24.3,4). Ou seja, sem Jesus, estamos perdidos. Sem Jesus, lidaremos com Deus baseados em nossa sujeira, nossos pecados conhecidos e ocultos perante os homens. Não há como fugir: sem Jesus, já estamos condenados. 

Contudo, ainda há esperança. A maravilhosa Palavra de Deus continua ecoando: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3.16).

Pelo fato de Jesus ter clamado o início do salmo 22, ele também pôde cumprir o verso 22 do mesmo salmo: "Então declararei o teu nome aos meus irmãos; louvar-te-ei no meio da congregação." Assim, graças à obra de Deus em Cristo, todo aquele que arrepende-se de seus pecados e confia na obra e na pessoa do Filho de Deus, Jesus de Nazaré, é admitido no povo de Deus. Mais que isso, os crentes em Jesus são feitos irmãos dele -- o povo de Deus é a família de Deus. 

Se você quer experimentar da comunhão genuína com o santo Deus e com a família de Deus, a igreja do Senhor, entregue-se a Cristo hoje. Por meio da Palavra, ele declara a você:

"Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve" (Mt 11.28-30). 

Que Deus seja glorificado.

sábado, fevereiro 03, 2018

Conselhos para os reprovados no vestibular


Caro leitor,

sei que há uma série de sonhos e emoções relacionados ao vestibular. Embora para muitos dos seus amigos seja "apenas uma prova" – a velha história de que "ano que vem tem teste de novo" –, sei que para você não é assim que funciona. Você sonhou com este dia. Preparou-se para ele. Porém, infelizmente, você foi reprovado. Não é nada fácil.

Ao sermos reprovados em um aspecto de nossa vida, questionamos todo o resto. Parece que não fomos apenas reprovados em uma prova, e sim que reprovamos como pessoa. Chegamos a pensar que somos inferiores, menos privilegiados e até mesmo que não fazemos nada importante. Não caia nesta armadilha. Sua vida não pode ser medida por uma prova. Jamais.

Diante disso, gostaria de fornecer alguns conselhos para você lidar com a sua reprovação. Sabemos que é muito mais fácil falar do que fazer. Todavia, é difícil fazer algo valioso sem que haja planejamento. Espero que o meu falar o auxilie a tomar boas atitudes.

Primeiro, não deposite sua confiança no vestibular. Não pense que ele é a chave para a satisfação de seus anseios. Longe disso. Embora a aprovação no vestibular resulte em boas oportunidades para a vida, ela não levará você da água ao vinho. De fato, você encontrará na universidade tanto bons caminhos para o amadurecimento pessoal e profissional, quanto maus caminhos para a imoralidade cuidado, sua aprovação no vestibular pode levá-lo da água à lama.

Então, antes de qualquer coisa, fortaleça-se em Cristo Jesus. Ele, sim, é digno de toda a sua confiança. Ele verdadeiramente satisfaz a alma. Considere a aprovação no vestibular como meio de adorar e servir a Jesus. Fortaleça-se na verdade por meio da leitura séria da Bíblia, oração, comunhão com os irmãos da igreja e recebimento de pregações fiéis da Palavra de Deus em sua igreja local. Além disso, procure entender como a fé cristã se relaciona com o campo de estudo do qual você quer fazer parte. Procure respostas às suas dúvidas, a fim de que você não seja presa do secularismo na universidade.

Tratemos de conselho mais técnico. Ele é simples. No entanto, muitos fracassam no vestibular por não observá-lo. Por favor, preste muita atenção: não estude para a próxima prova como se você fosse "zerado". Você sabe que os professores do ensino médio e dos cursinhos têm plano a cumprir. Não interessa se a turma seja de veteranos do vestibular, eles terão de seguir a ementa. Mas, se você já se prepara para o vestibular há algum tempo, com certeza há assuntos que você possui certa facilidade (não é verdade?!). Portanto, neste novo ciclo de estudos, comece fazendo um esquema com todas as disciplinas e assuntos relacionados. Marque os que você domina e os que você tem mais dificuldade. Este esquema regerá toda a sua rotina de estudos deste ano.

Assim, logicamente, você deve focar seus estudos em corrigir as suas falhas. Por exemplo, se você tem facilidade no assunto de matrizes e dificuldade em trigonometria, não é nada proveitoso revisar muito aquele e estudar pouco este. Sei que gostamos de nos iludir estudando bastante o que já sabemos, mas você deve vencer esta tentação. Neste mesmo sentido, se você tem facilidade em exatas e é péssimo em humanas, por favor, enfatize o estudo de humanas. Caso contrário, você se dará mal nos mesmos assuntos novamente.

Portanto, uma implicação: você não deve frequentar as aulas como um iniciante. Se você sabe que o conteúdo a ser ministrado pelo professor faz parte daqueles assuntos que você domina, não perca tempo. Neste período, enfatize o estudo em casa. Faça poucos exercícios do que você já sabe e se esforce para aprender os conteúdos em que você é fraco. Por favor, não caia no erro de seguir toda e qualquer programação da escola ou do cursinho. Lembra daquelas aulas aos domingos que sanarão todas as suas dúvidas? Não as frequente. Simples assim.

Finalmente, estude redação. Para isso, leia bons materiais. Se o Facebook e cia são a sua principal fonte de informação, você está perdido. O primeiro caminho para a boa escrita é a leitura de bons livros. Neste processo contínuo, você aprende ortografia e a como concatenar ideias. Você é treinado para se concentrar. Aliás, tal habilidade é uma das maiores deficiências de nossa geração. Estamos acostumados a ter o nosso foco periodicamente interrompido por inúmeras interações virtuais, e isso é trágico para quem quer fazer algo importante. Se você quer ser aprovado no vestibular, repense toda a sua vida on-line. Se possível, utilize redes sociais apenas durante poucos minutos aos fins de semana. Sua vida melhorará substancialmente. Ademais, escreva muito. Ninguém melhora a escrita apenas por observação. Você precisa treinar. Faça exercícios simples. Por exemplo, escolha um tema atual e então disserte sobre isso. Peça a um professor ou a algum amigo confiável para lhe dar um retorno. Não dependa apenas das aulas de redação na escola [1].

Obrigado por sua atenção e que Deus o abençoe.

[1] No texto Minhas principais leituras de 2017, faço a indicação de um livro que o ajudará muito a escrever melhor. Por favor, procure adquiri-lo. Ele é ótimo investimento.

segunda-feira, janeiro 22, 2018

O Culto de Narciso


Narciso na primavera, Jan Ross.

As marcas da era digital são indeléveis. Seja no dia a dia familiar, sejam nas atividades da igreja, é impossível fugir da influência da tecnologia em nosso modo de pensar e agir. Por estarmos acostumados com as principais potencialidades da internet, por vezes, parece-nos impossível deixar de lado o nosso eu virtual. Podemos, inclusive, cair no erro de agir como se este fosse o nosso verdadeiro eu.

É claro que demonstrações de carinho e afeto não surgiram em nossos tempos. No entanto, a necessidade de realizar tais provas de amor em público é sentimento peculiar de nossa geração. Escrever os chamados “textões” no Facebook parece nos dar mais prazer do que produzir uma carta. Quer assumamos ou não, mesmo que a pessoa à qual nos dirigimos leia nossas declarações em ambos os casos, nossas afirmações públicas têm gosto especial: a de sermos reconhecidos por outros. Na loucura de nossos tempos, somos capazes de tornar nossos momentos mais íntimos e especiais em meios para a autoexibição.

Infelizmente, é possível transformar um simples “eu te amo, mãe” em meio para receber um soberbo “nossa, como ele é filho exemplar”, ou um tolo “esta família que a gente respeita”. Para vergonha nossa, somos capazes até mesmo de mascarar algum passeio comum (não tão legal e emocionante) com os amigos através de legendas repletas de “#MelhoresAmigos#PasseioTop”. Afinal, na era das redes sociais, nossa imagem e reputação parecem ser tudo.

A relação entre o homem e a paixão pela autoexibição não é tema recente. Por exemplo, na mitologia grega, somos apresentados ao mito de Narciso. Segundo escreve Thomas Bulfinch:

[…] Ali chegou um dia Narciso, fatigado da caça, e sentindo muito calor e muita sede. Debruçou-se para desalterar-se, viu a própria imagem refletida na fonte e pensou que fosse algum belo espírito das águas que ali vivesse. Ficou olhando com admiração para os olhos brilhantes, para os cabelos anelados como os de Baco ou de Apolo, o rosto oval, o pescoço de Marfim, os lábios entreabertos e o aspecto saudável e animado do conjunto. Apaixonou-se por si mesmo. Baixou os lábios, para dar um beijo e mergulhou os braços na água para abraçar a bela imagem. Esta fugiu com o contato, mas voltou um momento depois, renovando a fascinação. Narciso não pôde mais conter-se. Esqueceu-se de todo da ideia de alimento ou repouso, enquanto se debruçava sobre a fonte, para contemplar a própria imagem.”[1]

Neste mito, a paixão de Narciso por si mesmo o leva à morte. Decerto este é o clímax da narrativa. Porém, é interessante observar o aspecto gradual da autodestruição deste personagem. Primeiro, Narciso esquece-se de necessidades legítimas, tais como comer, beber e descansar. Segundo, o personagem mitológico utiliza o restante das energias dele para contemplar a nova paixão: a própria imagem. Então, Narciso, fascinado por si mesmo, morre esgotado.

Tal fascínio narcisista quer se estabelecer em nossa geração. É muito fácil crianças e adolescentes isolarem-se com a companhia apenas de um aparelho com acesso à internet. Ficar sozinho no quarto, fazendo inúmeras selfies, a fim de postar alguma foto bonita na rede é comportamento recorrente em nossos dias. Este estilo de vida é tão comum que muitos pais nem sequer incomodam-se com ele. Paira sobre eles a ideia de que “a vida do século XXI é assim mesmo.”

Porém, as práticas narcisistas não se restringem às interações familiares e sociais. Não importa onde estivermos, nosso coração propenso à autoexibição estará conosco. Por isso, até mesmo a interação humana mais importante está sob ataque: a nossa relação com o santo Deus.

Neste contexto, devemos lembrar-nos de que atividades como evangelismo, auxílio aos mais necessitados e oração privada são ações recomendadas pela Palavra de Deus. Tudo isso é bem-vindo se for realizado dentro do que é prescrito pelo Senhor. Assim, qual o padrão que o Senhor Jesus estabelece para nossas obras? Vejamos:

Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles; aliás, não tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus. Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita; para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente. E, quando orares, não sejas como os hipócritas; pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente” (Mateus 6.1-6).

O padrão bíblico para as ações do povo de Deus, portanto, é a discrição. Tal virtude envolve humildade. Porque, quando se é discreto, Deus é o foco dos pensamentos e ações. No entanto, por meio de uma simples foto publicada na internet, o nosso serviço a Deus pode ser inteiramente desperdiçado e nossa recompensa reduzida à mera glória humana. Tratando acerca disto, Tony Reinke escreve:

A agitação de aprovação social tem condicionado que alimentemo-nos de ‘pequenas explosões de confirmação dadas através de cada curtida, marcação como favorito, retweet, ou compartilhamento’.[2] Este novo condicionamento fisiológico significa que nossas vidas tornam-se mais dependentes da aprovação dos outros a cada momento. O problema não é apenas que precisamos nos afastar destas pequenas explosões de aprovação, mas que devemos nos reprogramar desta fome on-line.

Caso não nos desintoxiquemos destes hábitos, continuaremos procurando intimidade reproduzindo nossa própria imagem, embebedando-nos da aprovação humana e iniciando cada dia com ressaca desta. E então precisaremos do antídoto de nova afirmação por parte de nossos amigos a fim de nos mantermos convencidos de que nossas vidas têm sentido. Isto é trágico. É recompensa desperdiçada. O louvor sólido que esperamos da parte de Deus é baseado em ações que, em grande medida, não são vistas agora; o louvor caprichoso que buscamos on-line é baseado no que exibimos.[3] Não podemos negligenciar este contraste.”[4]

O alerta de Tony Reinke é muito sério, pois ele enfatiza o ensino de Jesus acerca de quem exibe-se aos outros: “Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão”. Assim, estamos diante de uma escolha simples. Ou agimos discretamente a fim de receber a recompensa eterna que vem de Deus, ou agimos de modo a exibir nossas boas obras com o intuito de recebermos a recompensa temporária da parte dos homens.

Diariamente, precisamos nos lembrar disso. Seja a jovem mãe que precisa parar de expor o filho todo dia, apenas para receber uma dose de “nossa, amiga, como ele é lindo#presentedeDeus!” Ou o pastor que não consegue passar uma semana sem postar foto do rascunho dos sermões, para mostrar que ele leva a sério a pregação fiel da Bíblia. E o que dizer do pregador que ama ver a imagem dele nas redes? O objetivo não é a edificação do povo de Deus, e sim a da própria soberba. Lembremo-nos de que até mesmo um pedido de oração semanal pode ter más intenções. O que seria para pedir a bênção de Deus sobre o culto, pode, na verdade, manifestar a necessidade de consumo de porção de reconhecimento por parte dos outros.

Precisamos combater este impulso à autoexibição com todas as nossas forças. Nossas obras têm consequências eternas. Não podemos brincar com elas. Além disso, o culto ao Deus verdadeiro está em jogo. Se o objetivo de nossas ações, inclusive as ditas “religiosas”[5], for a criação de belo álbum no Facebook e a aquisição de mais seguidores no Instagram por meio da autoexibição, Deus não será cultuado. Na verdade, se nossa imagem for o foco de nosso culto, realizaremos uma das piores formas de idolatria: a idolatria do eu, travestida de adoração ao Deus verdadeiro.

Que Deus nos livre disso.

Notas:

[1] Thomas Bulfinch, em O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis, Agir, 2014, p. 108.

[2] Alastair Roberts, compartilhado com permissão (citação original em [4]).

[3] Rm 2.28-29 (citação original em [4]).

[4] Tony Reinke, em 12 Ways Your Phone is Changing You (12 Maneiras em que Seu Telefone está Mudando Você), Crossway, 2017, p. 76.

[5] O pensamento de que nossa vida é dividida em secular e sagrado é muito comum. A parte “secular” compreenderia as nossas atividades “não religiosas”, tais como emprego, estudos, diversão. O “sagrado”, por sua vez, seria constituído do que “fazemos para Deus”, como orar, ler a Bíblia, ir à igreja. Porém, na verdade, somos chamados a viver em todas as áreas de nossa vida para a glória de Deus. Assim, não há como consagrarmos a Deus apenas algumas de nossas ações ou partes específicas do nosso tempo. Tudo deve ser santificado ao Senhor. Então, devemos tomar cuidado com a idolatria do eu inclusive nas atividades que realizamos fora do contexto eclesiástico.

sábado, janeiro 06, 2018

A carta aos Hebreus e a autoria Paulina - (subsídio lições Bíblicas 2018)

Nesse primeiro trimestre de 2018 estudaremos a Carta aos Hebreus e a primeira lição, como de
praxe, faz um estudo introdutório da carta. Um desses elementos se refere a autoria da epístola.  A pergunta "quem escreveu Hebreus?" até hoje reverbera em um momento ou outro no debate teológico. A erudição teológica, de maneira geral, afirma atualmente certo agnosticismo com relação à autoria da Carta. Talvez a única certeza que a maioria dos teólogos afirmem é que certamente tal epístola não provém do apóstolo Paulo.

De maneira interessante, não era esse o consenso de grande parte da igreja no período patrístico, nem tampouco o consenso universal da cristandade a paritr de 400 d.C. De maneira geral, a igreja defendeu vigorosamente a autoria paulina da Espístola aos Hebreus. Quais os motivos para tal quebra de consenso? É possível ainda defender a autoria Paulina? É o que veremos a seguir.


- A Igreja Primtiva e Hebreus:

As primeiras citações de Hebreus provêm bem cedo na história da igreja. A Epístola de Clemente de Roma aos Coríntios é recheada da fraseologia e dos temas teológicos de Hebreus. No lado oriental da Cristandade, de fala grega, a epístola é contada como paulina, ainda que o estilo divergisse do estilo de Paulo. Segundo Pateno e Clemente de Alexandria, o autor da Epístola seria o apóstolo Paulo, porém o estenográfo (redator) da carta seria outro (Clemente de Alexandria sugere que foi Lucas que atuou como o redator). Um dos mais antigos manuscritos gregos do Novo Testamento, o papiro 66(século III depois de Cristo), coloca Hebreus logo após Romanos. A frase de Orígenes, registrada por Eusébio de Cesaréia em sua História Eclesiástica, é muito usada para sustentar um desconhecimento da autoria da carta: "Quem escreveu a carta, só Deus sabe". Todavia, um exame mais minucioso da frase mostra que Orígenes defendeu a autoria paulina:

 "Mas eu diria que os pensamentos são do apóstolo [Paulo], mas o discurso e a fraseologia pertencem a alguém que registrou que disse o apóstolo, e anotou livremente o que o seu mestre dizia... mas só Deus sabe quem realmente escreveu a epístola...de acordo com alguns, que Clemente, que era bispo de Roma, escreveu a epístola; de acordo com outros, que foi escrita por Lucas, que escreveu o Evangelho e os Atos"¹.

Fica claro, a partir do contexto, que Orígenes não atribui unicamente à onisciência divina quem é o autor da epístola, mas sim seu redator. Uma prova cabal que Orígenes cria na autoria paulina da espítola provém de sua declaração em sua magnum opus, Contra Celso. Neste livro, ao refutar o filósofo pagão Celso, Orígenes declara:

"Pois está escrito na carta de nosso Paulo aos Coríntios, gregos, cujos costumes ainda não tinham sido purificados: 'Dei-vos a beber leite, não alimento sólido, pois não o podíeis suportar. Mas nem mesmo agora podeis, visto que ainda sois carnais. Com efeito, se há entre vós invejas e rixas, não sois carnais e não vos comportais de maneira meramente humana' ( 1 Co 3,2-3). E este mesmo apóstolo, sabendo que certas verdades são o alimento da alma adiantada na perfeição, e outras, dos neófitos, são comparáveis ao leite das criancinhas, declara: 'Precisais de leite, e não de alimento sólido. De fato, quem ainda se amamenta não pode degustar a doutrina da Justiça, pois é criancinha! Os adultos porém, que pelo hábito possuem o senso moral exercitado para dicernir o bem e o mal, recebem o alimento sólido' (Hb 5,12-14)" (Contra Celso 3.53).²


Ainda que na igreja do ocidente houvessem dúvidas no que tange a autoria³, tais dúvidas se dissiparam devido a ampla aceitação da Epístola em várias igrejas, e por fim a aceitação que a Epístola provinha do apóstolo Paulo.

- A Opinião contemporânea acerca da autoria de Hebreus e a evidência interna:

A maioria dos estudiosos, em especial a partir do século XVIII e e XIX, começaram a lançar dúvidas acerca da autoria paulina de Hebreus. Dentre as maiores objeções, há as seguintes:

1. A ausência da tradicional identificação paulina, contida em todas as outras epístolas.
2. O estilo literário da epístola, que divergia em muito em termos do estilo Paulino.
3. A evidência que o autor na verdade não participara do círculo apostólico (Hb 2.3).

A primeira objeção, ainda que válida, pode ser explicada de várias maneiras. Uma possível explicação se daria pelo fato de aqui, Paulo não estar escrevendo para uma igreja gentítilica ou predominamente gentílica, mas sim para uma das igrejas mais primitivas do cristianismo: uma igreja judaica. Aqui, Paulo não precisa reforçar sua imagem como apóstolo, pois ao que tudo indica, todos os ouvintes sabiam quem ele era (Hb 13.22). Aqui, Paulo fala como "hebreu de hebreus", seu estilo fugiria do convencional, pois não se trata simplesmente de uma epístola, mas sim de uma palavra de exortação (gr. του λογου της παρακλησεως Hb. 13.22).  Em Atos 13.15, Lucas relata que Paulo e Barnabé entram em uma sinagoga e são convidados a dar uma "palavra de consolação" (λογος εν υμιν παρακλησεως), quem profere a palavra, aqui, é Paulo. O contexto hebraico da carta aos hebreus e sua natureza homilética só reforçam a autoria paulina.

A segunda objeção, bastante válida, tem ganhado, todavia, objeções de peso  através do trabalho de David Alan Black, professor de grego do Southeastern Baptist Theological Seminary e através da teóloga alemã Eta Linnemann. Em seu livreto monumental The Authorship of Hebrews - The Case for Paul (A autoria de Hebreus - Em defesa de Paulo). Black traça vários paralelos de expressões gregas encontradas em Hebreus e nas cartas paulinas, indo até mesmo a temas teológicos. De maneira semelhante, o artigo científico de Eta Linnemann, A Case for a Retrial of the Epistle of Hebrews (Um caso de Reanálise da epistola aos Hebreus), mostra claramente evidências linguísticas que estão de acordo com a linguagem paulina.

Mesmo um exame comparativo com a tradução em português é possível captar semelhanças temáticas e às vezes linguísticas entre o Paulo e Hebreus. Dentre as quais destacamos a seguir:

E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo. Com leite vos criei, e não com carne, porque ainda não podíeis, nem tampouco ainda agora podeis. (1 Co 3.1-2)

Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimento. Porque qualquer que ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino. Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal. (Hb 5.12-14).

Porque tenho para mim, que Deus a nós, apóstolos, nos pôs por últimos, como condenados à morte; pois somos feitos espetáculo ao mundo, aos anjos, e aos homens. (1 Co 4.9)

Em parte fostes feitos espetáculo com vitupérios e tribulações, e em parte fostes participantes com os que assim foram tratados. (Hb 10.33)

Como tenho por justo sentir isto de vós todos, porque vos retenho em meu coração, pois todos vós fostes participantes da minha graça, tanto nas minhas prisões como na minha defesa e confirmação do evangelho (Fp 1.7).

Porque também vos compadecestes das minhas prisões, e com alegria permitistes o roubo dos vossos bens, sabendo que em vós mesmos tendes nos céus uma possessão melhor e permanente (Hb 10.34).

Se for possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens (Rm 12.18)

Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor (Hb 12.14).

Depois desse comparativo, o leitor é covidado a fazer um comparativo do epílogo de Hebreus com os demais epílogos das outras cartas paulinas.  O epílogo tem forte sabor paulino:

Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que em tudo querem portar-se honestamente. E rogo-vos com instância que assim o façais, para que eu mais depressa vos seja restituído. Ora, o Deus de paz, que pelo sangue da aliança eterna tornou a trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus Cristo, grande pastor das ovelhas, Vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por Cristo Jesus, ao qual seja glória para todo o sempre. Amém. Rogo-vos, porém, irmãos, que suporteis a palavra desta exortação; porque abreviadamente vos escrevi. Sabei que já está solto o irmão Timóteo, com o qual, se ele vier depressa, vos verei. Saudai a todos os vossos chefes e a todos os santos. Os da Itália vos saúdam.
A graça seja com todos vós. Amém.

Por último, resta a objeção levantada com base em Hebreus 2.3: "Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram".

A objeção é levantada pelo fato do autor parecer pertencer a segunda geração de discípulos. Todavia, é importante ressaltar aqui é que o autor não afirma ter recebido a revelação dos apóstolos, mas sim a confirmação por parte dos apóstolos. Ora, isso está totalmente de acordo com o que sabemos de Paulo.

Confrontando a opinião corrente, Eta Linnemann dá sua explicação de Hebreus 2.3:

"A segunda metade de Hebreus 2.3 está em aposição com o conceito de 'grande salavação'. Dessa 'grande salvação' eles obtém confirmação. A 'grande salvação' é o sujeito, não o 'nós', no qual o autor da epístola se coloca juntamente. Ocorre unicamaente com relação à salvação. Não siginifica aqui 'ensinar' ou 'fazer discípulos', mas 'estabelecer', 'confirmar', 'garantir'. Porque os mais jovens ouviram a proclamação de grande salvação do Senhor confirmada, eles são o 'nós' pela qual foi garantinda, não seus pupilos.Hebreus 2.3 certamente exclui o autor de ser inequivocadamente um jovem seguidor de Jesus de ser o autor de Hebreus, mas não o apóstolo Paulo, que nunca foi um inequívoco jovem seguidor de Jesus! O que se lê aqui então não entra em contradição com o que lemos em Gálatas 1.16-17)".

Conclusão

Apesar de hoje majoritariamente a autoria paulina ser descartada, ela não ficou todavia, sem defensores de peso na atualidade. Os argumentos levantados por David Alan Black e Eta Linnemann são fortes o bastante para ao menos se considerar o apóstolo Paulo como o mais provável candidato à autoria da carta, se não provam, realmente, que o apóstolo dos Gentios, certamente é o autor da epístola. Certamente que optar pela defsa da autoria paulina, terá como aliado o peso da grande tradição cristã. Tradição essa, que como Black e Linnemann mostram, tem muito a nos dizer.

Soli Deo Gloria.

Notas:

1. CESARÉIA, Eusebio de. História Eclesiásica. Tr. Lucy Iamakami. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.p. 227.
2. ALEXANDRIA, Orígenes de. Contra Celso. Tr. Orlando dos Reis.2° ed. São Paulo: Paulus,2011. p.251
3. A igreja no ocidente aceitou de maneira definitiva o testemunho paulino de Hebreus através dos escritos de agostinho e Jerônimo. Na época da reforma, tanto Lutero quanto Calvino discordavam da autoria paulina de Hebreus. Lutero sugeriu Apolo como o mais provável candidato. Todavia, é de se estranhar que a igreja em Alexandria, de onde Apolo provinha, nunca sugeriu ter sido ele o seu autor.