terça-feira, julho 23, 2019

Conselhos importantes para uma Hermenêutica* pentecostal saudável.

Filósofo [ou Teólgo] Lendo, por Giuseppe Petrini

      Tratando ainda da temática do artigo anterior, faz necessário agora lidar com os princípios que devem reger uma correta interpretação das Sagradas Escrituras. Uma coisa é ter a Bíblia em alta conta como Palavra inspirada de Deus. Outra, completamente diferente, é interpretá-la de acordo com tal axioma. Diante dos novos desafios apresentados para a hermenêutica pentecostal, cabe agora reforçar e citar novamente alguns dos conselhos já consagrados para uma correta leitura e interpretação da Bíblia. Procuro aqui dar estes conselhos para crentes recém-convertidos, leitores inexperientes da Bíblia e seminaristas/obreiros que inciaram recentemente um estudo bíblico/teológico com maior profundidade. Dentre os vários conselhos importantes, destaco os cinco listados a seguir:

1). Não leia a Bíblia como um livro comum.

       A Bíblia foi escrita utilizando linguagem humana, para seres humanos, por seres humanos. Portanto, qualquer homem pode ler e por si mesmo e interpretar a Bíblia. Todavia, a Bíblia não foi produzida por vontade humana, mas "homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo" (2 Pe 1:21). Para o crente, acadêmico ou não, ler a Bíblia como Palavra de Deus deve ser algo pressuposto desde o início. A Bíblia é inspirada por Deus, portanto, é infalível e inerrante em sua natureza e em tudo o que afirma.

2). Atente para a linguagem humana da Bíblia.

        A citação do célebre Louis Gaussen, feita por Myer Perlman em sua obra Conhecendo as Doutrinas da Bíblia (Ed. Vida) é de suma importância para se interpretar corretamente a Palavra: "...É Deus quem fala no homem, é Deus quem fala por intermédio do homem, é Deus quem fala como homem, é Deus quem fala para o homem". Para uma interpretação saudável, o hábito da leitura cuidadosa deve ser fortalecido e constantemente praticado. Deve-se atentar para as palavras, sentenças, figuras de linguagem e o contexto em que os oráculos de Deus foram proferidos. Obviamente também faz-se necessário o uso de um método de interpretação para lidar com os textos, mas veremos isso com mais detalhes em artigo posterior.

3). Atente para o que o autor escreveu, e não o porquê dele ter escrito.

      À primeira vista, essa declaração soa estranha e até mesmo descabida: como podemos ignorar o motivo do autor ter escrito o que escreveu? Não seria ignorar o contexto cultural e histórico do texto? Não necessariamente. Na grande parte das ocasiões, o motivo levou o autor a escrever sobre determinado assunto se encontra no próprio texto, o que esclarece de imediato o motivo da escrita e não deve ser de forma alguma ignorado. Todavia, isso nem sempre acontece. Há várias ocasiões em que não sabemos o motivo do autor ter escrito o que escreveu, ainda que entendamos o sentido do texto ou de determinado livro.
      Tomemos como exemplo a Epístola de Paulo aos Colossenses. Quando se estuda esta epístola, é repetido ad infinitum pela grande maioria dos estudiosos bíblicos que Paulo estava lidando com algum tipo de heresia proto-gnóstica que estava ameaçando a igreja em Colosso. Todavia, não há nenhuma evidência latente que  esse seja o caso. Não há repreensão aberta a hereges ou gente facciosa feita pelo apóstolo a algum falso mestre, como vemos em Gálatas ou mesmo Filipenses, não há uma repreensão à igreja ou mesmo uma refutação de heresia particular. Os que argumentam em contrário costumam citar  Colossenses 2:8: "Tende cuidado,  para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo.", em reforço a esse pensamento costuma citar Colossenses 2:18-23. Estaria, porém, o apóstolo combatendo uma heresia dentro da igreja por algum falso mestre? ou não estaria ele, alertando os Colossenses a não caírem em tal erro que os rondava naquela cidade profundamente helenizada? Parece-me que a segunda opção faz mais justiça ao contexto geral da carta, ainda que certamente a visão mais aceita não deva ser prontamente abandonada¹.
        Outros exemplos de textos que não indicam o motivo do autor escrever podemos citar é Êx 23:19. Norman Geisler indica em sua Teologia Sistemática (Ed. CPAD) que há cinco interpretações dadas para explicar o motivo que levou Moisés a escrever o que escreveu, diante disso, Geisler escreve: "Em outras palavras, ninguém parece saber com certeza qual o objetivo deste mandamento. Mesmo assim, todos tem certeza de seu significado na prática". Saber o motivo que levou o autor a escrever o texto nos ajuda a entender o texto, mas não é o árbitro para entendermos o significado do texto (que se encontra no texto). Nas palavras de Geisler: "o que é dito claramente está separado do motivo pelo que se diz alguma coisa"².

4). Procure o sentido natural do texto.

         Não há motivo para procurar um significado oculto no texto. Deve-se ler as escrituras levando em conta o sentido normal do texto bíblico, atentando obviamente, para as figuras de linguagem que o autor usa, o gênero que ele emprega e obviamente o contexto histórico-cultural em que o autor está inserido, conhecimento este que pode ser adquirido através de comentários bíblicos, livros acerca da história de Israel e livros que tratam do mundo antigo e a cultura do Novo Testamento.

5). Leia a Bíblia em adoração.

        Esse certamente é um dos pontos mais importantes. Haja vista a Bíblia não ser somente um livro humano, mas também um livro divino, para se ter realmente um entendimento das dimensões espirituais da Bíblia e experimentar orientação do Espírito, é necessário ler a Bíblia com um espírito de humildade, oração e adoração. Eric Lund e P. C. Nelson, em sua obra Hermenêutica (Ed. Vida), resumem bem esse tipo de atitude: deve-se ler a Bíblia com um espírito dócil, respeitoso, amante da verdade, paciente no estudo e prudente na leitura texto bíblico.


        Tais conselhos, que nada possuem de inovação, porém são perenes e extremamente necessários para todo o crente leitor da Bíblia, e para que todo o obreiro da casa de Deus não se envergonhe, e saiba manejar bem a Palavra da Verdade.

Amém! 

Soli Deo Gloria

* Ainda que eu utlize aqui a expressão "Hermenêutica Pentecostal", particularmente não me sinto confortável com a expressão. Parafraseando o teólogo e pastor pentecostal Geremias Couto, a Hermenêutica cristã deve ser bíblica e apontar para o entendimento cristão fiel e expresso no decorrer dos séculos. Todavia, a expressão, ainda que carregada de uma orientação teológica em particular, ao mesmo tempo serve para reforçar ou examinar a fidelidade do sistema ou confissão de fé à luz das Sagradas Letras. No caso em questão, a confissão de fé pentecostal, deve estar alinhada com o pensamento evangélico tradicional.

NOTAS:
1. D. A. Carson, de quem sou devedor nesta abordagem acerca da epístola aos Colossenses,  elogia o trabalho de Morna D. Hooker, que trata propriamente dessa temática. Tal elogio se encontra no pequeno livreto publicado por Edições Vida Nova: Teologia Bíblica ou Teologia Sistemática? . A abordagem de Morna, todavia, foi duramente criticada por F. F. Bruce, em artigo publicado no jornal teológico Bibliotheca Sacra, intitulado The Colossian Heresy, disponível aqui.
2. O capítulo da Sistemática de Geisler acerca do pressuposto hermenêutico de leitura bíblica deve ser lido por todo o estudante e leitor que preza pela Bíblia e a reconhece como Palavra de Deus.

sábado, julho 06, 2019

Pentecostalismo, Revelação e Autoridade: novos desafios à hermenêutica pentecostal.


O evangelista Mateus inspirado por um anjo(Rembrandt)
          Desde o seu início, o movimento pentecostal enfrentou críticas quanto a sua natureza e "inovação" teológica/litúrgica. Além das críticas quanto a doutrina da atualidade do batismo com o Espírito Santo e a atualidade dos dons espirituais, a crítica teológica mais comum foi a da inaptidão pentecostal em afirmar e defender a autoridade, inspiração e inerrância da Palavra de Deus. Livretos como o de Josafá Vasconcelos, intitulado Nada se Acrescentará (Puritanos, 1998), repetem essa crítica em tempos recentes. Hélio Menezes, célebre batista fundamentalista, certa vez me respondeu em e-mail que o pentecostalismo era espiritualmente danoso pois "colocava a experiência acima da Bíblia". Todavia, uma rápida olhada pela história do movimento pentecostal desmitifica tal crítica exagerada, pelo menos no campo doutrinário/teológico. 
            Na Teologia Sistemática pentecostal editada pelo célebre Stanley Horton,  Gary B. McGee descreve como a confissão pentecostal das Assembleias de Deus americanas em sua Declaração de Verdades Fundamentais  mostrou sua sintonia com a Associação Nacional de evangélicos, quando publicou uma revisão no texto da Declaração, afirmando que as Escrituras eram "verbalmente inspiradas por Deus, e são a revelação  de Deus ao homem, a regra infalível  e autorizada de fé e conduta". Mais tarde, a própria Convenção reafirmou seu compromisso com a Inerrância da Bíblia, com a publicação de um informe oficial sobre o tema¹.
            Dentre os teólogos destacados dentro do movimento pentecostal que sempre defenderam com vigor a inspiração e inerrância das Escrituras  podemos citar Myer Pearlman, que em seu livro Conhecendo as Doutrinas da Bíblia defende claramente a inspiração plenária e verbal da Bíblia, afirmando que "As Escrituras são o resultado da divina inspiração espiritual, da mesma maneira em que o falar humano é  efetuado pela respiração, que possibilita a emissão das palavras"². Outros teólogos pentecostais de destaque em defesa da inerrância são William W. Menzies e Stanley Horton em seu Doutrinas Bíblicas: Os fundamentos de nossa fé, livro que procura ser uma explicação teológica autorizada acerca das Verdades Fundamentais das ADs nos EUA. Nele, Horton e Menzies são enfáticos: "A origem divina e autoridade das Escrituras asseguram-nos ser a bíblia também infalível, ou seja: incapaz de erro, ou de maneira enganosa, ludibriadora ou desapontadora a seus leitores"³.
          Diante de tais declarações, não há como  afirmar que o movimento pentecostal, representado por sua maior denominação, não esteja de acordo com relação à Bíblia como Palavra de Deus. Porém há mais coisas a tratar.

O Desafio Hermenêutico do pentecostalismo contemporâneo.

        Afirmar a veracidade das Sagradas Escrituras é algo bem definido no movimento pentecostal. No que tange à interpretação, os pentecostais de maneira geral,  em especial no Brasil, sempre seguiram o método gramático-histórico de interpretação dos textos bíblicos, mesmo com algumas distinções em certos pontos. Tal método, que remota ao tempo da Reforma, é o único que faz jus à Bíblia como Palavra de Deus inerrante, pois valoriza as declarações verbais bíblicas, pronunciadas em seu devido espaço histórico e cultural. O método gramático-histórico é também chamado de método "antioqueno" ou "literal de interpretação", assim também como método "naural", de interpretação Bílbica. No método gramático histórico, não se procura a "intenção" do autor ao escrever determinado texto, mas sim o significado expresso no próprio texto, como afirma Roy Zuck: "Quando interpretamos a Bíblia, procuramos entender o que ela diz, não o que o autor humano quis dizer"[4].
           Em anos recentes, todavia, um desafio ao método histórico-gramatical foi proposto dentro das academias evangélicas. Vários estudiosos tendem a acrescentar algo ao método tradicional, outros também procuram abordar a interpretação bíblica através de teorias linguísticas modernas, que não levam em conta a inspiração bíblica.  Outros até mesmo estão  vendo a possibilidade de utilizar novamente um método alegórico de interpretação bíblica, que procura descobrir um "sentido mais pleno" do que o expresso pelo autor humano [5].  Tal tipo de inovação hermenêutica não deixou de estender certa influência na academia pentecostal. No Estados Unidos, teólogos associados com o pentecostalismo procuram associar a experiência pentecostal com a experiências místicas de outras religiões, inclusive as de matriz africana[6].
          Nestes últimos anos, tal tipo de novidade hermenêutica aparece em obras que procuram dialogar com os pressupostos entre a pós-modernidade e a experiência pentecostal, como por exemplo  Pentecostalismo e  Pós-modernidade (Cpad), de autoria de César Moisés, e mais especificamente, a obra de David Mesquiati e Kenner Terra, Experiência & Hermenêutica Pentecostal (Cpad), onde os autores propõem outras possibilidades de interpretação bíblica para a teologia pentecostal.
        Um dos pontos comentados por César Moisés e expresso no livro de Mesquiati e Terra parece receber certa simpatia na obra introdutória à teologia pentecostal, escrita por meu amigo Gutierres Siqueira. Na obra Revestidos de Poder,  Gutierres, que de maneira  competente destrói vários estereótipos que existem no que tange à doutrina pentecostal, faz uma declaração interessante no capítulo 3, que trata da importância da experiência:

"Ora, o que vem antes: a teologia ou experiência? Ora, a Teologia é precedida pela experiência. A teologia é a explicação e reflexão da experiência"[7].

        Tenho firme convicção que Siqueira não está aqui tentando colocar a experiência acima da Bíblia, como ele mesmo expressa nos parágrafos subsequentes do capítulo em questão. Porém, a afirmação de Siqueira é no mínimo intrigante. Ele dá a entender que está se referindo ao conhecimento experimental que o crente tem quando encontra as realidades espirituais da Bíblia, que lhe dá um novo insight, por assim dizer, da realidade de que fala o texto bíblico. 
        Saborear espiritualmente as verdades da Palavra de Deus é uma coisa, mas será mesmo que é essa a ideia principal ou conceitual que César Moisés tenta transmitir em seu próprio livro? Extraio aqui parte da citação de César Moisés feita pelo próprio Siqueira:

"...originalmente, a teologia sempre sucede a experiência, pois ela representa a tentativa de dar sentido ao que aconteceu, procura sistematizar a revelação especial em forma de doutrina e até a própria religião como um todo".

         A quem César está se referindo quando expele a palavra "originalmente"? Aos leitores comuns da Bíblia? A toda a tradição da teologia sistemática da história da igreja cristã? Aos  supostos "teólogos racionalistas" que existiram na época pós-Reforma? Tudo isso é abrangente demais, genérico demais e como consequência, vazio demais para surtir qualquer análise séria em um leitor pentecostal que usa sua massa cinzenta. Porém, a declaração acima tem muita semelhança com a análise do fenômeno religioso nas Ciências da Religião. Caso César Moisés esteja, ainda que de maneira sutil,  falando da experiência original do autor bíblico diante da divindade, então sua declaração precisa ser rejeitada na latrina mais próxima e importa dizer o porquê.

Breve consideração a Hermenêutica Moderna e a Revelação Bíblica:

             Há um problema afirmar que a experiência precede a teologia, caso por teologia se entenda a clássica definição do "falar sobre Deus" segundo a "revelação" que Deus dá. Nesse caso, a experiência ocorrida é verdadeiramente uma experiência lógica, ou seja, é uma experiência  obviamente "sentida", mas igualmente "ouvida" e ouvida de maneira racional. O autor de Hebreus resume as experiências passadas com Deus pelo povo de Israel durante sua história com a simples frase: "Havendo Deus, antigamente, falado..."(Hb 1:1). O primeiro capítulo de Gênesis, logo no início afirma: " E disse Deus" (Gn1:3), e o apóstolo João remete ao princípio e afirma "Era o Verbo" (Jo 1.1). Em toda e qualquer parte, a experiência que Deus dá é mediada por sua Palavra, ela é Lógica (gr. Logos), inteligível e pessoal. Mesmo os alcançados por Deus são aqueles que "ouvem" as palavras de Cristo através da pregação. O apóstolo Pedro exorta que se alguém falar, "que fale segundo as palavras de Deus" (1 Pe 4.11). Logo, a experiência com Deus é sempre "teológica".

           De maneira interessante, o próprio apóstolo Pedro faz uma declaração importante acerca da Bíblia, da revelação e da experiência. Logo após citar  citar sua autoridade como testemunha apostólica na experiência com Jesus no monte da transfiguração, o apóstolo também acrescenta:

"E temos, mui firmes a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia esclareça,e  a estrela da alva apareça em vosso coração" (2 Pedro 1.19).

            A Bíblia não somente traz revelação. Ela é a revelação. Para Pedro, ter a palavra profética é tão firme quanto ter a experiência de ver Cristo transfigurado. É ter a "luz que alumia em lugar escuro".

Conclusão:

Há muito o que dizer sobre as novas tentativas hermenêuticas dentro do pentecostalismo brasileiro. O intuito desse artigo é levar a uma reflexão e alerta sobre a importância da doutrina e teologia pentecostal estarem verdadeiramente alinhados com sua legítima base: A autoridade da palavra de Deus, e usando um método que honre, e não obscureça, tal autoridade no coração dos que leem a Santa Palavra. Tendo isso em mente, tenho por certo que todos seremos abençoados.

Amém!

Sola Scriptura!
Soli Deo Gloria

Notas:

1.HORTON, Stanley (ed). Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal. Trad:Gordon Chow. Rio de Janeiro: CPAD, 1996.p.31.
2.PEARLMAN, Myer. Conhecendo as Doutrinas ds Bíblia. Trad:Lawrence Olson. São Paulo: Editora Vida, 2006. p.28.
3. MENZIES, William W. HORTON, Stanley H. Doutrinas Bíblicas: os fundamentos de nossa Fé. Trad.João Marques Bentes. Rio de Janeiro: CPAD, 1995.p.22.
4.ZUCK, Roy B. A Interpretação Bíblica.Trad. César de F. A. Bueno Vieira. São Paulo: Vida Nova, 1994 .p.74.
5. Uma obra recente que defende vários elementos do método alégorico de interpretação dentro da teologia protestante é o livro de Craig A. Carter: Interpreting Scripture with the Great Tradition: Recovering the genius of pre-modern exegesis (Baker Books, 2019). O livro de Carter possui vários pontos positivos dignos de nota, todavia, vários de seus questionamentos acerca do valor do "sensus plenior" como forma de combater a teologia liberal (uma das propostas do livro) são discutíveis.
6. Tal tipo de pensamento é encontrado em Amos Young, famoso teólogo de origem pentecostal do seminário teológico Fuller. Para ver uma rápida, porém firme crítica à posição de Yong em português, basta consultar o livro A Trindade no Evangelhode João, de Köstenberger & Swain (Edições Vida Nova).
7. SIQUEIRA,Gutierres. Revestidos de Poder: Uma introdução à teologia pentecostal. Rio de janeiro: CPAD, 2018. p.49

segunda-feira, julho 01, 2019

Norman Geisler (1932-2019): defensor da Fé.



Os crentes brasileiros receberam uma triste notícia hoje  pela manhã: Morreu, após um forte derrame cerebral, o apologista, filósofo e teólogo evangélico Norman Geisler. Geisler foi um dos grandes apologetas do século XX e firme defensor da inspiração e inerrância bíblica e do método gramático-histórico de interpretação bíblica, tendo sido inclusive o presidente do International Council on Biblical Inerrancy (Concílio Internacional de Inerrância Bíblica), que reuniu teólogos e pastores de várias denominações em defesa da autoridade das Escrituras, dentre os quais R. C. Sproul e J. I Packer. O concílio resultou na publicação da Declaração de Chicago sobre inerrância Bíblica, um dos maiores documentos em defesa da Bíblia no século XX. Autor e editor de mais de 100 livros, sendo diversos deles publicados no Brasil, Geisler destacou-se com temas como Apologética clássica, predestinação e Livre-arbítrio e inspiração bíblica. Se tornou famosa a expressão que Geisler era uma ponte entre Tomás de Aquino (seu teólogo preferido) e Billy Graham. 

Juntamente com seu amigo e "rival" R. C. Sproul, Geisler foi um dos grandes promotores da abordagem conhecida como "Tomismo evangélico", que reinaugurou a teologia natural e o método clássico de apologética dentro da teologia evangélica do século XX. Geisler era tão admirador de Aquino que chegou a estudar em uma faculdade jesuíta, a Loyola University Chicago, para se aprofundar ainda mais! Todavia, sempre foi firme em seu compromisso evangélico, chegando a escrever dois livros críticos acerca do Catolicismo Romano, além de um importante artigo: Why I'm not a Roman Catholic (Porque não sou católico Romano)¹. Foi deão do Southern Evangelical Seminary (Atualmente ocupava o cargo de presidente Emérito e professor até se aposentar em abril deste ano), presidente da Evangelical Theological Society, onde lutou pela expulsão de Clark Pinnock, após este aderir ao teísmo aberto e outros pontos da teologia liberal. Sem sucesso, Geisler deixou a instituição em 2003.

Nesses últimos anos, Geisler destacou-se em sua batalha contra novas nuances da teologia liberal que estavam influenciando cada vez mais a academia evangélica, inclusive em maior escala através de escritos de teólogos famosos como Mike Licona, Peter Enns, Craig Blomberg e John H. Walton. Seu livro The Jesus Quest: the danger from within, em parceria com F. David Farnell,  causou certo rebuliço quando foi publicado de maneira independente pela Xilon Press e criticou várias personalidades e celebridades da academia evangélica americana. Em parceria com Farnell, Geisler lançou o site Defending Inerrancy, no qual tratava dos desafios contemporâneos levantados contra a doutrina da Inerrância.

Ainda que eu discorde de certos pontos de sua teologia, como por exemplo no que tange algumas incoerências na apresentação da doutrina calvinista e em sua adesão ao Texto Crítico do Novo Testamento, Geisler influenciou profundamente muitos aspectos dos meus estudos teológicos, em especial a  área da Bibliologia e Apologética Clássica. Em The Jesus Quest e Vital Issues in The Inerrancy Debate,  ele dedicou-se a combater as novas formas de liberalismo dentro da igreja, que lidam justamente com Hermenêutica bíblica, problema que assola certos setores assembleianos da atualidade. Dentre os livros do Geisler que recomendo se encontram A Inerrância da Bíblia, Enciclopédia de Apologética, Ética Cristã, Introdução Bíblica e sua Teologia Sistemática. Vou sentir saudade, mas que bom que ele deixou um legado fantástico com seus escritos e preparou uma nova geração contra as teologias liberais da atualidade. Agora, ele terminou a corrida. Agora, ele está em casa.

"Porque para mim, o Viver é Cristo, o morrer é lucro" (Fp 1:21).

 Soli Deo Gloria

Notas:
1. disponível em: https://normangeisler.com/why-im-not-a-roman-catholic-mp3-audio-file/

segunda-feira, dezembro 31, 2018

Servorum 2018: sob a cruz e a glória.

O apóstolo Paulo certamente deve ser considerado como um dos homens mais notáveis da história do cristianismo. Inúmeros livros, pregações e polêmicas durante a história da igreja envolveram Paulo, sua teologia e seus escritos inspirados. Dentre os temas da teologia paulina, não há como não destacar a ẽnfase que o apóstolo dá à glória de Deus. Aos coríntios Paulo diz: Quer comais, quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus (1 Coríntios 10.31). O foco do apóstolo certamente é a glória de Deus. Essa glória se encontra em Cristo Jesus e este crucificado e ressurreto. Parafraseando Lutero, podemos dizer que a "teologia da glória" paulina se encontra na "teologia da cruz", ou então, a primeira é claramente exposta depois da última. Cristo é o Senhor pré-existente que,  vindo  a este mundo, voluntariamente se humilha até a cruz para depois ser recebido em glória (Fp 2.8-9 / 1 Tm 3.16). Ele que morreu de maneira humilhante, e por isso, Deus o exaltou de maneira inigualável (Fp 2.9-11). O tema da glória e do sofrimento se reflete igualmente na vida cristã, como bem demonstrou Paulo e os demais apóstolos no Novo Testamento.

No ano de 2018, mais do que nunca estes elementos se mesclaram. Tempestades vieram,  bonanças também. Em casa, bençãos,  bençãos e mais bençãos O Senhor Deus me abençou-me com uma bela menina, já meu amigo, Nilton Rodolfo, terá seu primeiro filho em 2019. No ministério, lutas e alegrias e depois, lutas novamente;  depois, mais alegrias.

O fato é de que aquele que segue ao Senhor Jesus sempre encontrará as bençãos e as lutas, mas até as lutas, estão no contexto das bençãos, pois assim é, enquanto estivermos nesta vida.

Jesus, respondendo, disse: Em verdade vos digo que ninguém há, que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou campos, por amor de mim e do evangelho,que não receba cem vezes tanto, já neste tempo, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, com perseguições; e no século futuro a vida eterna.
 As bençãos de Deus são incontáveis, e mesmo as aflições ou tribulações não se comparam com aquilo que Deus fez por nós neste ano, e acima de tudo daquilo que ele fez por nós em Cristo 

Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, E não subiram ao coração do homem, São as que Deus preparou para os que o amam. 

É por esse motivo que o apóstolo se gloria em tudo, pois tudo coopera para o bem na vida do crente, inclusive a tribulação, que produz experiẽncia e por conseguinte a experiẽncia e esperança (Rm 5.3-4).  
Muito Deus  fez aos editores deste blog, e temos convicção: muito Ele ainda vai fazer. Mas acima de tudo, devemos nos gloriar e alegrar de tudo o que recebemos, e sermos agradecidos, o que inclui os seguintes pontos:

a) Sermos agradecidos no ministério: As aflições ministeriais fazem parte daquele que milita no ministério da Palavra, todavia, isso não deve nos desanimar, mas reconhecer que em tudo teremos galardão, se formos fiéis (1 Co 9.15-16). Sirvamos mais, reclamemos menos.

b) Sermos agradecidos pela família: Depois da salvação, não há presente mais importante do que a família, devemos louvar a Deus  por nos ter dado maridos/esposa e filhos (Sl 127.3-4). Há muitos que se encontram longe de sua casa, longe de bons relacionamentos familiares e  alguns nem família possuem. Mesmos nestes últimos, casos, Deus sempre será o refúgio (Sl 68.6).

c) Sermos agradecidos por termos o Senhor Jesus Cristo: Não há benção maior do que esta. Em Cristo, alcançamos a reconciliação, Em Cristo, temos a bendita esperança e a firme certeza de estarmos resgatados do pecado e firmes em Deus para sempre.

 Tendo essas três perspectivas em mente, certamente teremos nossos corações agradecidos e confortados. É importantissímo termos em mente que, a despeito de qualquer tipo de benção material ou sucesso que que tivemos em 2018. A maior, sem sombra de dúvida, ter a graça da presença de deus em nossa vida. 

Que Deus continue derramando a sua benção neste ano de 2019. Não somente a nós, mas a todos os nossos leitores. Sob a cruz de Cristo, para a glória de Deus.

Um feliz ano-novo nas bençãos e na presença de Cristo!

Soli Deo Gloria

segunda-feira, dezembro 24, 2018

Natal: Achemos o menino!

E, tendo eles ouvido o rei, partiram; e eis que a estrela, que tinham visto no oriente, ia adiante deles, até que, chegando, se deteve sobre o lugar onde estava o menino. E, vendo eles a estrela, regoziram-se muito com grande alegria. E, entrando na casa, acharam o menino com Maria sua mãe e, prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas: ouro, incenso e mirra. Mateus 2:9-11 

Os três homens haviam andado muito tempo em busca do menino, eles vinham do oriente e foram à Jerusalém. O que os guiava na busca pelo menino era uma estrela brilhante, que não parava fixa em lugar. Depois de encontrarem com um impiedoso rei e continuarem sua busca, finalmente viram a estrela se fixar. A Escritura relata: "... e eis que a estrela, que tinham visto no oriente, ia adiante deles, até que, chegando, se deteve sobre o lugar onde estava o menino. E, vendo eles a estrela, regozijaram-se muito com grande alegria." (Mateus 2. 9-10). Não há dúvidas da beleza do episódio bíblico que relata o nascimento de Jesus, e com certeza a busca dos magos nos faz pensar e refletir: o foco da busca era o menino.

Para os crentes em Cristo, o natal sem dúvida é uma data especial. Muitas igrejas protestantes/]evangélicas celebram o "advento", a encarnação do Verbo de Deus, o Senhor Jesus. Não é a à toa que há muitas luzes no natal, sendo que podemos dizer que naquela noite, possivelmente mesmo não havendo muitas estrelas, a Luz do mundo veio e "tabernaculou entre nós" (Jo  1.14).

O episódio dos magos (ou "sábios") é um dos mais queridos e lembrados nesta época. De maneira interessante, vemos que há uma leve discrepância, que encontramos nas bíblias baseadas no Textus Receptus, como é o caso da passagem de Mateus 2.11:


"E, entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe,e, protando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, lhe ofertaram dádivas: ouro, incenso e mirra" (ARC).
"E, entrando na casa, eles viram o menino com Maria sua mãe e, prostando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas: ouro, incenso e mirra" (BKJ Fiel - 1611).

Enquanto que a ARC diz "acharam", a versão portuguesa da King James (em consonância com a versão inglesa) afirma que os magos "viram". A diferença aqui não é meramente uma questão de tradução de uma mesma palavra grega, mas da tradução de uma variante nos manuscritos bíblicos, que envolve o Texto Bizantino, a Poliglota Complutense e o Textus Receptus.

Qual das variantes é a correta? Se formos seguir a maioria, "eidon" de longe é a preferida, ainda que "euron" também se enquadre perfeitamente no contexto do texto bíblico. Um ponto digno de nota é que "euron" está também presente na Vulgata latina (invenerunt), mostrando que a leitura atesta de boa antinguidade, ainda que seja minoritária em grego.

Seja como for, o sentido aqui é claro: Os magos já haviam visto a estrela que os conduzia a Cristo, o que trouxe a eles grande alegria. Todavia, não bastava encontrar uma evidência, um sinal, que apontasse para Cristo. Era necessário encontrarem o Salvador, e isso fizeram, quando entraram naquela casa, e viram o Deus-homem, quando o "viram", também o "acharam".


Que possamos seguir o mesmo exemplo destes homens. Que possamos relembrar do momento quando Deus nos chamou, quando nos conduziu pelas evidências, de maneira alegre  também entrarmos em um relacionamento com Cristo. Que possamos nos alegrar por tê-lo visto e, ao vê-lo, o achado. Não há bem maior que possamos ter do que Jesus Cristo, o Messias. Que você possa, caro leitor, caso ainda não o tenha conhecido, também o possa ver e se regozijar n'Ele.

O blog Servorum Dei deseja a todos os seus leitores um Feliz Natal!
Soli Deo Gloria.

sexta-feira, outubro 26, 2018

REFLEXÕES: ESCOLA BÍBLICA E POLÍTICA.





"Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego.

Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá pela fé.

Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça.

Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou.

Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis;

Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu.
Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos.
E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis.
Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si;
Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém. " Romanos 1:16-25
(...) Os quais, conhecendo o juízo de Deus (que são dignos de morte os que tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos que as fazem." Romanos 1:32
 
Algumas pessoas recentemente me perguntaram como cristãos conseguem desenvolver uma paixão messiânica por políticos, inclusive por políticos e partidos nitidamente anticristãos, como visivelmente se têm apresentado os partidos de esquerda no Brasil. Minha resposta é simples, são cristãos que não compreenderam ou abandonaram o verdadeiro Evangelho – digo isso em ambos os espectros, direita ou esquerda.

Para ilustrar brevemente meu ponto, quando mais novo, minha classe (do irmão Rodolfo também) da Escola Dominical, inclusive professorada pelo irmão Victor Leonardo, costumava se chamar “Romanos 1” exatamente porque muitas das questões apresentadas nos levavam à referida porção bíblica nos dando diversas respostas acerca da desolação da condição humana pós-queda. Uma visão nítida da depravação do homem e da miséria de sua alma na mente, no coração e nos atos fica exposta nos revelando a profundidade da morte existencial pós-queda.

Um dos muitos caminhos mortais de desequilíbrio, que termina por conduzir alguém à idolatria, é exatamente o desprezo pela doutrina do pecado e da miséria humana, dessa porção inalienável da mensagem do Evangelho, 

Os contraditórios cristãos de esquerda têm esquecido que a desolação humana após a queda não se dá unicamente no nível material, mas no moral, ético, espiritual, estético, etc. Dá-se no âmago do ser, deformando-o por inteiro, e que a redenção somente pode ser alcançada em Cristo porque Ele é o perfeito homem que pode redimir inteiramente o homem que nEle crê.

O problema do contraditório cristianismo de esquerda é que seus adeptos trocaram a visão evangelical de desolação humana pela visão da pobreza de posses da visão materialista-dialética do socialismo, consequentemente abandonando a noção de uma redenção integral e bíblica, disponível unicamente em Cristo. Compraram uma visão inadequada do mal, o que trouxe-lhes uma visão medíocre de redenção. Por este motivo, conseguem atribuir visão messiânica a partidos de esquerda que prometem como redenção distribuição de renda ao mesmo tempo em que estão dedicados e comprometidos com a degradação moral e a total oposição, deboche e ódio pelo Evangelho da Cruz e, portanto, pelos reais valores cristãos.

É exatamente por esta alienação do Evangelho bíblico que, apesar de todo o projeto maligno e degradante que a esquerda apresenta explicitamente, os ditos crentes de esquerda apoiam tais partidos. Isso resulta do pouquíssimo conhecimento acerca do problema do mal que possuem, de maneira que eles não se aproximam nem mesmo da noção escriturística de corrupção da matéria, pois ignoram o principal aguilhão contra o corpo, o aguilhão da morte que bem material algum conseguirá deter.

Alguns podem argumentar: “mas a direita também não pode trazer redenção”. Tenho isso totalmente por certo, e tenho considerado um vergonhoso absurdo a postura visivelmente idólatra que também alguns cristãos têm adotado na esfera política de direita, inclusive aqueles que por antipatia justificada ao projeto nefasto da esquerda, contraditoriamente começaram a se intitular cristãos libertários. Digo vergonhoso, pois qualquer idolatria é uma afronta ao Senhor, seja ela do indivíduo ou do estado.

Repudio qualquer manifestação de confiança na força de algum homem ao ponto de aguardá-lo como Messias; tal ato também é uma afronta a Cristo.

Alguns já devem ter pensado, “eis aí mais um texto ‘isentão’”. Na verdade, não. Sou acima de tudo um cristão, por isso penso em política de maneira cristã. Por este motivo tenho grande simpatia pelo conservadorismo – não idolatria, mas simpatia – exatamente nos pontos que possuem pautas consideradas justas e boas pela Escritura; pois tenho como obrigação, à luz da Escritura, chamar o bem de bem e o mal de mal, amar o que Deus ama e abominar tudo aquilo que Ele odeia, a desejar tempos de paz (Isaías 5:20) – e não vislumbro tal possibilidade em qualquer governo de esquerda.

Desta forma, teço minhas considerações finais, aos ditos cristãos de esquerda: tomem vergonha na cara! A teoria socialista claramente despreza vocês, sempre se opôs a Cristo e a religião, uma vez que reduzem a realidade e o ser à matéria, ignorando qualquer noção de dimensão espiritual e, consequentemente, a verdadeira miséria do homem. Vê-los implorando por aceitação a um declarado inimigo da Cruz é uma vergonha para o Evangelho.

Aos cristãos que se aliam à direita, digo-lhes que apesar do caos e do desespero que uma era possa trazer à nossa sociedade e vida, não depositem confiança redentiva na política ou em homem algum; olhem para o alto, busquem a Deus, façam política que glorifique ao Senhor, orando e zelando por tempos de paz, orando pelas autoridades, chamando de bem o que é bem e de mal o que é mal, desprezando o crime, desprezando toda e qualquer maldade, amando o que Deus ama e odiando o que Ele odeia, aguardando no Senhor o Seu grande dia onde de fato desfrutaremos de justiça social. Votem com coerência cristã, mas nunca com idolatria.

Preguem ao homem a verdadeira desolação de suas almas e a esperança disponível no único Messias de Deus.

Para se prevenir, basta retornar às verdades do Evangelho que são poderosas para salvar a tua alma e a te guardar incontaminado do mundo (Tiago 1:21). E assim poderás seguir nesta terra desolada com a esperança da redenção de todas as coisas em Cristo Jesus, no dia certo de sua segunda vinda. Creio que um bom jeito de começar ou se desenvolver é também fazer como aprendemos na Escola Bíblica: retornar e ler Romanos 1.

segunda-feira, junho 18, 2018

O que Armínio era - e os assembleianos não são...



Prosseguindo com as polêmicas do post anterior, o pastor Altair Germano, o atual paladino da "herança arminiana" e guardião dos bons costumes nas Assembleias de Deus, continua a disparar contra a "influência calvinista" dentro da Assembleia de Deus e sua luta pela casa publicadora dentro da denominação. Mas do que se trata a herança arminiana? Quem foi Jacó Armínio? Se fizessem tal tipo de pergunta à grande maioria dos assembleianos cerca de cinco a sete anos atrás, apenas os especializados em teologia  e crentes mais estudiosos poderiam responder com certa precisão. Muito da vida de Armínio passou a ser descoberto apenas recentemente, com a publicação de obras biográficas e da  publicação de suas Obras  Obras pela CPAD. Hoje a propaganda do momento é a "herança arminiana"a ser preservada pela denominação. Porém, antes que possamos fazer qualquer defesa de tal herança, vejamos quem Jacó Armínio era teologicamente, e os assembleianos não são:
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a) Armínio era Pedobatista:

Como um bom membro da Igreja Reformada Holandesa, Armínio nunca se posicionou contra o batismo infantil e por aspersão em suas obras. Como um bom adepto da teologia da Aliança, Armínio foi categórico:

"O objeto deste batismo não é real, mas apenas pessoal, isto é, todo o povo do concerto de Deus, quer sejam adultos ou crianças, com a condição que que as crianças sejam filhas de pais que façam parte do novo concerto, ou se um de seus pais estiver entre o povo do concerto de Deus, porque a ablução no sangue de Cristo lhes foi prometida e, também, porque, pelo Espírito de Cristo, eles estão enxertados no corpo de Cristo". (Obras de Armínio, Vol. 2.p.144).

 A Assembleia de Deus, todavia, desde o início seguiu o credobatismo, também chamado de Batismo de Crentes, algo reafirmado na Declaração de Fé assembleiana. Vejamos o que a Declaração de fé afirma:

"Não aceitamos nem praticamos o batismo infantil por não haver exemplo de batismo de crianças nas Escrituras e por não ser o batismo um meio da graça salvadora, ou sinal e selo da aliança, que substitui a circuncisão dos israelitas. Também por não ser possível à criança ter consciência de pecado, condição necessária para    que    ocorra    arrependimento.    As    crianças,    em estado pueril, não preenchem esses requisitos. Sobre a circuncisão, o pensamento cristão bíblico é: “em Cristo Jesus nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura” (Gl 6.15). Cremos e ensinamos que o batismo é apenas para os que primeiramente se arrependem dos seus pecados e creem em Jesus,4 sendo também necessário pedir para ser batizado: “Eis aqui água; que impede que eu seja batizado? E disse Filipe: É lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus. E mandou parar o carro, e desceram ambos à água, tanto Filipe como o eunuco, e o batizou” (At 8.36-38). Assim, os candidatos ao batismo precisam exercer o arrependimento e a fé. O Novo Testamento mostra o batismo posterior à    fé. Isso é visto no dia de Pentecostes e na campanha evangelística de Filipe em Samaria: “como cressem em Filipe, que lhes pregava acerca do Reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, se batizavam, tanto homens como mulheres” (At 8.12). Esses fatos não deixam margem para o batismo infantil "(Declaração de fé. Sobre o Batismo Infantil. p. 129).


b) Armínio era Aliancista:

Ainda que Armínio não escreveu algo diretamente escatológico, seguindo sua linha aliancista  no caso do pedobatismo,  pode-se concluir seguramente que Armínio era um tradicional amilenista na escatologia. Nesta visão, não há espaço para arrebatamento "secreto", pré-tribulacionista, nem tampouco um milênio literal. A assembleia de Deus, ao contrário, tradicionalmente adotou o dispensacionalismo, que afirma tudo o que o amilenismo nega. Interessantemente, o próprio dispensacionalismo surgiu entre calvinistas¹.

c) Armínio era Cessacionista:

Talvez a maior incoerência para os defensores da tradição arminiana dentro das assembleias de Deus seja essa: Armínio nunca defendeu a atualidade dos dons espirituais, pelo contrário. Seguindo um tipo de raciocínio semelhante ao encontrado em muitos reformados, Armínio categoricamente negou a atualidade dos dons espirituais e nem sequer cogitou a ideia do batismo com o Espírito Santo posterior à conversão. Armínio foi claro:

"Uma vez que iniciemos a defesa dessa perfeição [da Escritura] contra inspirações, visões, sonhos e outras coisas novas e entusiásticas, afirmamos que, desde a época em que Cristo e seus apóstolos peregrinaram pela terra, nenhuma inspiração de qualquer coisa necessária para a salvação de qualquer indivíduo ou da igreja foi feita a nenhuma pessoa ou congregação de pessoas, coisa essa que não esteja, de uma maneira plena e extremamente perfeita, contida nas Sagradas Escrituras." (Obras de Armínio Vol. 2.p. 23)


Mas aí, o leitor pode objetar que, a bem da verdade, a Assembleia de Deus segue a soteriologia de Armínio, não outros aspectos de sua teologia. Bem,  a grosso modo essa declaração pode soar como verdadeira, porém nem mesmo isso se dá de maneira precisa. Em seu esquema teológico, Armínio não nega a doutrina dos decretos de Deus (elemento característico da teologia reformada), mas os reformula com uma estrutura sinergística. Nem a grande maioria dos assembleianos e nem mesmo a Declaração de Fé segue o esquema proposto por Armínio. Na verdade o que temos é a versão arminiana modificada por John Wesley, onde não se estabelecem decretos divinos na eternidade. Um detalhe importante é que Armínio pareceu inclinado a defender a doutrina da perseverança do santos, e categoricamente afirme que nunca ensinou que o crente possa perder totalmente a sua salvação, algo que a Declaração de Fé assembleiana nega veemente. A declaração de Armínio pode ser vista no 1° Volume de suas Obras:

Embora eu aqui, aberta e sinceramente, afirmo que eu nunca ensinei que um verdadeiro crente pode, total ou finalmente, abandonar a fé, e perecer; todavia não nego que haja passagens da Escritura que me parecem apresentar este aspecto; e as respostas a elas que tive a oportunidade de ver não se mostraram, em minha opinião, convincentes em todos os pontos. Por outro lado, certas passagens são fornecidas para a doutrina contrária [da perseverança incondicional] que merecem especial consideração

A Declaração de Fé profere uma visão acerca da apostasia nos moldes wesleyanos, mas sua formulação chega a uma estranheza que surpreenderia até John Wesley:

"Rejeitamos a afirmação segundo a qual “uma vez salvo, salvo para sempre”, pois entendemos à luz das Sagradas Escrituras que, depois de experimentar o milagre do novo nascimento, o crente tem a responsabilidade de zelar pela manutenção da salvação a ele oferecida gratuitamente: “Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus vivo” (Hb 3.12). Não há dúvidas quanto à possibilidade do salvo perder a salvação, seja temporariamente  ou eternamente. Mediante o mau uso do livre arbítrio, o crente pode apostatar da fé, perdendo, então, a sua salvação: “Mas, desviando-se o justo da sua justiça, e cometendo a iniquidade, fazendo conforme todas as abominações que faz o ímpio, porventura viverá? De todas as justiças que tiver feito não se fará memória; na sua transgressão com que transgrediu, e no seu pecado com que pecou, neles morrerá” (Ez 18.24). Finalmente temos a advertência de Paulo aos coríntios: “Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia” (1 Co 10, 12). Aqui temos mencionada a real possibilidade de uma queda da graça.51 Assim, cremos que, embora a salvação seja oferecida gratuitamente a todos os homens, uma vez adquirida, deve ser zelada e confirmada" (Declaração de fé. É possível a perda da Salvação. p.114).

Todos esses fatores revelam claramemte que não há necessariamente, nenhuma simbiose entre o arminianismo e o pentecostalismo, pelo menos não no que diz respeito ao pentecostalismo assembleiano. .

- Que diferença isso faz?

Muita, a bem da verdade. Como já escrevi em artigos anteriores, o que define ser pentecostal e assembleiano não é afirmar calvinismo ou arminianismo. A Assembleia de Deus não enfrenta uma cise de identidade por causa do calvinismo, e sim um crise de identidade por não saber o que é pentecostalismo. Se alguém perguntar para a maioria dos jovens pentecostais entre 20 e 30 anos quem foi Myer Perlman, Donald Gee ou Stanley Horton a ignorância será memorável. 

Ora, publica-se uma obra com tantas distinções doutrinárias como a de Armínio, que não superam sua importância teológica, não há motivo para temer obras publicadas por calvinistas, pois ainda que possuam certa distinção teológica, não contribuem para a igreja de Cristo? Quem poderá negar o valor das obras de Nancy Pearcey e R. C. Sproul para a apologética por exemplo? Ou Josefo e Eusébio para a história do Cristianismo? Campenhausen para a patrística? Negar o valor de tais obras devido seus autores serem de outra linha teológica é alienação espiritual e suicídio intelectual.

No que tange à CPAD, há espaço sim para publicações evangélicas de ambos os lados teológicos. As possíveis distinções autorais podem ser reparadas com simples notas de rodapé editorais, como as que a editora fez na obra A Bíblia Explicada, de S. E. McNair. Publique-se Lutero, Calvino, Armínio, Wesley, Spurgeon. Certamente todos nós seremos abençoados em Cristo.

Soli Deo Gloria.

Notas:

1. Acerca da origem calvinista no dispensacionalismo, leia o artigo " A Herança Calvinista do Dispensacionalismo" de Thomas Ice, disponível aqui: https://www.chamada.com.br/mensagens/calvinismo_dispensacionalismo.html

2. As citações dos escritos de Armínio são da tradução feita pela CPAD, porém neste último utilizei a feita pelo irmão Clóvis Gonçalves do blog  Cinco Solas: http://www.cincosolas.com.br/2008/08/arminianos-ouam-armnio.html.