quinta-feira, maio 13, 2010

Eleitos: Mortos ou Semi-mortos?

Dando continuidade à minha imperfeita ilustração, tem-se:

Um colega [1] daquele rapaz chega a este e lhe pergunta:


"Por que você escolheu amar aquela moça? Você não percebeu o quanto que ela cheira mal devido à sua podridão? Ela já deve estar morta há uns 19 anos!"


Meu amigo, não se engane. Todos estão mortos em seus pecados- inclusive os eleitos. Não ache que a eleição transforma alguns pecadores em "menos mortos"(ou semi-mortos) que os outros. Como se os eleitos tivessem total capacidade em si mesmos para serem salvos e conhecerem a Deus- ou pelo menos uma pré-disposição para isso. Eles odeiam a Deus tanto quanto um não-eleito. Veja:


E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados,em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora nos filhos da desobediência. Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também.(Ef 2.1-3)

A eleição não consiste em produzir pecadores com bom coração, e sim em escolher ossos secos que serão vivificados pelo Espírito; nem consiste em criar pessoas menos injustas, e sim em decretar que algumas pessoas confiarão unicamente nos méritos de Cristo Jesus. Ou seja, a eleição realizada por Deus Pai envolve e está fundamentada nas obras de Cristo e do Espírito Santo.

"Eis que em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe", disse o salmista Davi; e nenhum homem [2] que nasceu ou nascerá de mulher poderá fugir desta verdade: todos nascem pecadores. Completamente maus- não simplesmente sujos e e contaminados com o pecado, e sim rebeldes que odeiam a Deus. Logo, todos os homens são inimigos de Deus e merecedores da terrível e santa ira de nosso Juiz.

Como um juiz humano seria injusto se ele não condenasse um criminoso, baseado na confissão e nos pedidos de perdão deste; Deus seria, também, injusto se Ele não trouxesse punição ao pecador. Porém, "Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus- O qual por nossos pecados foi entregue e ressuscitou para nossa justificação; e ao Senhor agradou o moê-lo, fazendo-o enfermar" [3]. Jesus levou sobre si as nossas iniquidades e recebeu todo o cálice da ira de Deus que era contra nós. A justiça de Deus foi cumprida em Cristo. E somente pela fé nEle podemos ser justificados.

A salvação está disponível a todos. Quem vir a Ele de maneira nenhuma será lançado fora. O chamado dEle é real e verdadeiro para todos- eleitos e não-eleitos. Entretanto, quem virá a Cristo se não há um justo sequer; se não há ninguém que busque a Deus? Ninguém! Pois todos estão mortos e jamais poderão vir a Cristo por si mesmos. É totalmente necessário nascer de novo. Porque somente através de um novo nascimento os pecadores poderão vir a Ele verdadeiramente.

"E quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça, e do juízo". A regeneração (o novo nascimento) é obra total e exclusivamente do Espírito Santo. Nenhum pregador- por mais piedoso que ele seja- pode dar vida a pecadores- mesmo que ele tente usar tudo quanto é tipo de artifícios humanos. É o Espírito Santo que que irá operar sobrenaturalmente- através da pregação do Evangelho- em pecadores para que estes se arrependam de seus pecados e creiam em Cristo (o arrependimento e a fé são concedidos por Deus). É Ele que vivifica mortos e malditos pecadores; não porque estes escolheram ir a Cristo, mas porque Deus nos amou primeiro. Ou seja- para ratificar-, a regeneração começa antes mesmo da conversão; o Espírito Santo usa a Palavra para nos iluminar: "Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para o meu caminho". Sem a Bíblia, permaneceremos em total escuridão.

Como eu já disse, "a salvação está disponível a todos". E isso é uma grande verdade. Entretanto, somente os eleitos serão salvos. Ratificando: "a eleição consiste em escolher ossos secos que serão vivificados pelo espírito; e em decretar que algumas pessoas confiarão unicamente nos méritos de Cristo Jesus". Mas não veja isso como um chamado à negligência da pregação do Evangelho; como se você tivesse que selecionar pessoas para ouvirem o Evangelho, pois ele tem de ser pregado a todos. Também, por favor, não confunda ninguém especulando se tal pessoa é ou não eleita. "A árvore será conhecida pelos seus frutos". E lembre-se que pessoas simplesmente bem dispostas podem não receber a salvação (veja Mt 19.16-22); e que perseguidores do Evangelho podem recebê-la (veja At 9.1-18).

Concordo plenamente com as sábias palavras de J.I. Packer:

A reprovação é uma realidade bíblica (Rm 9.14-24; 1 Pe 2.8), mas não a que se relaciona diretamente com a conduta cristã. Até onde os cristãos saibam, os reprovados não tem face, não nos cabendo tentar identificá-los. Devemos, antes, viver à luz da certeza de que qualquer um pode ser salvo, se ele ou ela arrepender-se e colocar sua fé em Cristo.

Devemos ver todas as pessoas que encontramos como possivelmente entre os eleitos.[4]

Portanto, concluo dizendo que a doutrina da eleição, ao invés de ser um desestímulo, é um grande incentivo para a proclamação do Evangelho. Pois por meio dela temos a certeza de que Deus irá vivificar pecadores plenamente mortos que, se não fossem eleitos por Deus, jamais teriam esperança de salvação.

Que Deus nos perdoe.

P.S.: Creio que ainda devo escrever no mínimo mais um artigo sobre este tema. Orem por nós. Que Deus nos abençoe, irmãos e irmãs em Cristo.

Notas:

[1] É claro que nada nem ninguém coexistia com Deus na eternidade passada. Por isso ninguém poderia questioná-lo sobre a eleição. Eu só usei a ideia deste colega para sugerir uma reflexão sobre a podridão do homem.

[2] Jesus, o Deus- Homem, é a única exceção disso. Ele não nasceu pecador (por isso que o nascimento virginal de Cristo é importante).

[3] Textos citados: João 3.16-18; Romanos 4.25 e Isaías 53.10.

[4] PACKER, J.I., Teologia Concisa- 2. ed.- São Paulo: Cultura cristã, 2004; pág 134.

2 comentários:

Ednaldo disse...

Paz Nilton,

Eu queria ter escrito este artigo. :)

Em Cristo,

Ednaldo.

Nilton Rodolfo disse...

A Paz Ednaldo,

Obrigado pelo comentário. Que Deus nos abençoe na pregação do Evangelho.

Um abraço!