sexta-feira, abril 13, 2012

Éfeso, a Igreja do Amor Esquecido (subsídio para as Lições Bíblicas).

Em 2007, publiquei um comentário devocional sobre a carta à igreja de Éfeso, contida no Apocalipse do Apóstolo João. Esse comentário, que também continha elementos contextuais da igreja na ásia menor, foi revisto a adaptado como subsídio das lições bíblicas deste trimestre. Espero que este subsídio sirva de apoio aos irmãos que militam na Escola Dominical em favor da sã doutrina.


Biblioteca de Celso, nas ruínas da antiga Éfeso.

Fica claro no início do livro de Apocalipse que este se dirigia especificamente para as igrejas da Ásia: “João, às sete igrejas que estão na Ásia: Graça e Paz sejam convosco da parte daquele que é, e que era, e que há de vir, e dos sete espíritos que estão diante do seu trono.”(Ap 1:4). Pouco depois, Jesus aparece a João e ordena que ele escreva para as igrejas da Ásia, a começar por Éfeso: “Eu fui arrebatado no Espírito no dia do Senhor, e ouvi detrás de mim uma grande voz, como de trombeta. Que dizia: Eu Sou o Alfa e o ômega, o primeiro e o derradeiro; e o que vês, escreve-o num livro. E envia-o às sete igrejas que estão na Ásia: a Éfeso, e a Esmirna, e a Pérgamo, e a Tiatira, e a Sardes, e a Filadélfia, e a Laodicéia”(Ap 1:10-11).


Da cidade para uma igreja: Éfeso, uma introdução.


A cidade de Éfeso a presença evangelística do Apóstolo Paulo, que solidificou e praticamente fundou a igreja na região, pois lá encontrou pessoas que não haviam sido batizadas nem sabiam que havia o Espírito Santo (At 19: 1-2).  A visita de Paulo causou confusão na cidade, que era marcada por uma grande idolatria à deusa Diana. Os ourives da cidade, influenciados por Demétrio, que estava preocupado com seu emprego, desencadearam uma perseguição ao apóstolo, que só foi parado pela providencial mão de Deus sobre o escrivão da cidade (At 19:35-41). O fruto na cidade de Éfeso foi muito grande, pois milhares de livros esotéricos foram queimados.
A igreja também teve em sua companhia o amado Timóteo, que era como um filho adotivo de Paulo. Além dele, também tiveram o apostolo João, que permaneceu nessa igreja até a sua morte.


A carta de Jesus a Igreja em Éfeso:


Jesus começa elogiando grandemente a igreja em Éfeso: “conheço as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua paciência, e que não podes sofrer os maus; e puseste à prova os que se dizem ser apóstolos, e o não são, e tu os achaste mentirosos. E sofreste, e tens paciência; e trabalhaste pelo meu nome, e não te cansaste” (Ap 2:2).


O elogio de Jesus é importantíssimo para entendermos o contexto daquela igreja. Quando Paulo partiu definitivamente de Éfeso  ele alertou à igreja que se introduziriam falsos profetas que não poupariam o rebanho. O alerta foi em especial aos líderes daquela igreja (At 20: 28-32). Alguns comentaristas sugerem que os falsos obreiros a quem Paulo se refere são certos hereges gnósticos primitivos, o que é possível, mas tal sugestão é apenas especulativa, haja vista que o gnosticismo se torna mais latente na igreja primitiva no final do primeiro século. Mas então, o que aconteceu a Éfeso depois do discurso do Apóstolo? Ao que tudo indica realmente a palavra que Paulo pronunciou se cumpriu. Todavia, ele também sabendo da sua responsabilidade, enviou para a igreja seu filho na fé Timóteo, o que foi uma grande benção para aquela igreja, apesar de logo no inicio o rapaz apresentar timidez e ser novo demais para o pastorado, como Paulo revela na epístola para o jovem, que também fala que ele deveria refutar as falsas doutrinas e ser um exemplo de liderança na igreja. Depois de Timóteo, veio o Apóstolo João, que confirmou Éfeso como um importante centro apostólico.


Levando isso em conta, vemos porque Éfeso foi elogiada por Cristo. Ela havia lutado pelo Seu Nome, ela pôs à prova os que se diziam discípulos e não eram. Éfeso guerreou e permaneceu firme, e não se cansou! Ela foi como um boxeador inabalável, ainda que recebemos diversos golpes do adversário. Ela refutou as heresias e os mestres que a pregavam, mostrando que eles eram falsos apóstolos. Ela fora teologicamente equipada para isso, havia sido treinada por “um time de feras” experientes, “perfeitos”. Não é exagero classificarmos Éfeso como uma igreja completamente ortodoxa!,

“E sofreste...


 A batalha foi grande. A comunidade enfrentou a tribulação e angústia, porém trabalhou e não se cansou, continuaria o trabalhando a serviço de Cristo, pelejaria o quanto fosse necessário.

“Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor...”

Infelizmente há um “porém” em tudo isso. Éfeso havia perdido o seu primeiro amor. Cabe a nós perguntarmos: o que significa o primeiro amor? Os comentaristas não são tão unânimes como se imagina. Alguns afirmam que o primeiro amor se referia ao amor pelas almas perdidas, que não era mais o mesmo dos tempos do apóstolo Paulo, outros afirmam que o primeiro amor se referia à busca por Cristo, que não era mais fervorosa. Essas conclusões são complementares e não necessariamente contraditórias e nos ajudam a entender um pouco mais do contexto histórico daquela igreja. Todavia, falta algo. Muitos comentaristas são sensatos quando afirmam que na verdade o problema de Éfeso é que ela ERA UMA IGREJA EM POSIÇÃO DE BATALHA O TEMPO TODO. As lutas fizeram com que os cristãos efésios se concentrassem tanto em batalhas doutrinárias e em manter uma doutrina que deixaram o seu primeiro amor. A busca por Cristo não era mais zelosa e os cultos haviam se tornado rotineiros. Não somente a busca por Cristo, mas a comunhão com os irmãos, onde se mostraria o amar a Deus e amar ao próximo.


Observando tal quadro, lembramos da primeira carta do apóstolo João provavelmente escrita em Éfeso e destinada as igrejas sobre a sua supervisão,  que diz: “Se alguém diz: eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama seu irmão, a qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? E dele também temos este mandamento: que quem ama a Deus, ame também a seu irmão”(1 Jo 4:20-21). As brigas estavam “esquentando” o ânimo da comunidade com ira e a contenda devia ser grande e já durara certo tempo, talvez foi por isso que o apóstolo Paulo escreveu a Timóteo sobre aquela igreja:” quero pois, que os homens orem em todo lugar, levantando mão santas, sem ira nem contenda.”(1 Tm 2:8). A igreja não podia “sofrer”( que aqui, significa “suportar”) os maus, por isso estavam constantemente desconfiados, o relacionamento cristão estava abalado naquela comunidade. A repreensão de Jesus é clara: “lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei, e tirarei do seu lugar o teu Castiçal, se não te arrependeres”, a igreja precisava voltar a ter aquela comunhão com Cristo e com os irmãos, ela não podia deixar que as lutas doutrinárias tomassem todo o tempo da sua atenção, tirassem a alegria da Salvação, a busca por Cristo e o amor ao próximo. Éfeso acabara se acomodando ao formalismo e o cristianismo regular, porém sem fervor espiritual.

Não podemos nos esquecer, todavia, o que Jesus fala para aquela que era uma das principais igrejas dos tempos bíblicos: “tens, porém, isto: que odeias as obras do nicolaítas, as quais também eu odeio” havia algo em Éfeso que fazia com que Jesus não derramasse sua ira, pelo menos temporariamente, ou então abrandasse o seu Juízo: ela odiava os nicolaítas. As opiniões sobre esse grupo divergem, alguns dizem que eram seguidores de Nicolau, o prosélito de Antioquia, que fora um dos sete diáconos escolhidos em Atos dos Apóstolos. Hoje essa não é a opinião dominante entre os estudiosos, sendo que é de difícil sustentar tal afirmação, haja vista que a Bíblia não faz nenhuma ligação a esse movimento com o diácono que, segundo o relato da Escritura, tinha um bom testemunho diante da congregação e era cheio do Espírito Santo (At . A maioria dos comentaristas  afirmam que eram pessoas que provocavam fornicações e outros pecados no povo de Deus. Seja qual for o caso, os nicolaítas pervertiam a doutrina apostólica e buscavam lançar um grave tropeço na causa do Evangelho.


A igreja em Éfeso: um péssimo exemplo?


É comum ouvirmos hoje em muitas pregações que a igreja está perdendo o seu primeiro amor por Cristo, o que é realmente uma verdade, porém muitas vezes isso se dá por causa da constante iniqüidade e não exatamente por aquilo que aconteceu a Éfeso. Muitos menosprezam essa igreja taxando-a de sem Cristo e sem fervor, uma igreja fria e seca, um péssimo exemplo para o cristianismo. Ainda que haja grande verdade em todas essas afirmações, não seria um equivocado procedimento atentarmos para o próprio elogio que Nosso Senhor dirige a Éfeso. Devemos lembrar-nos de tudo aquilo que Jesus disse sobre ela: a luta que enfrentou, os sofrimentos que passou, a paciência que exercitou, a Palavra que cumpriu. Tudo isso revela que Cristo verdadeiramente amava aquela igreja e jamais deixaria de reconhecer tudo aquilo que Ele fez de bom através dela, porém nosso Senhor falou, por amor a aquela grande comunidade cristã que era necessário se arrepender, voltar aos primeiros anos, lembrar de onde ela tinha caído. O problema aqui não é ela ser uma igreja que refutava as heresias, não, Cristo as elogia e até diz que ela tinha uma coisa importantíssima, ela odiava as obras más, que odiava, não os nicolaítas, mas suas obras diabólicas.


Muitos crentes hoje fazem uma divisão brutal entre ortodoxia e experiência, porém tal diferença não existe. Só teremos uma experiência correta com um pensamento correto, e um pensamento correto acerca de Deus, Salvação, fé, perseverança e Cruz só é possível através das Sagradas Escrituras.


Devemos sim imitar a Éfeso na luta contra as heresias, todavia devemos tomar cuidado,  em especial aqueles que pelejam bastante pela fé: não podemos esquecer de nosso primeiro amor, não podemos deixar de nos relacionar, não podemos deixar de amar aos homens, e acima de tudo a Nosso senhor Jesus Cristo. Devemos ter nossa consciência limpa, tanto para com Deus como para os homens. Sabendo que para com os homens que sempre praticamos o bem para a glória de Cristo. E ainda que não sejamos compreendidos, estejamos livres do sangue de todos, pois nunca deixamos de anunciar todo o conselho de Deus. Para com Deus, vigiemos, e nunca desviemos-nos de nosso primeiro amor para com Ele, lembrando que não estamos sós, pois Ele constantemente nos encoraja dizendo: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida, que está no meio do paraíso de Deus” (Ap 2:7).



                                                                                Soli Deo Gloria.

2 comentários:

Suely Carmona disse...

Obrigada. Muito me edificou! Glória a Deus!

Nilton Rodolfo Rodrigues disse...

Obrigado por sua participação, Suely. Que Deus a abençoe!