terça-feira, novembro 13, 2007

Calvino – Eleitos Ricos e Ímpios Pobres?



Não há dúvida da influência e do poder que Calvino possuía na Genebra do século XVI, ali, Calvino praticamente deu base e sustentação teológica importantíssima para a reforma, Lutero não havia produzido uma teologia sistemática, enquanto que Calvino produziu a Magnum Opus do cristianismo reformado e posterior, Instituições da Religião Cristã, as Institutas, porém Calvino é até hoje retratado com certa desconfiança por muitos historiadores, que o taxam de ser um dos teóricos do capitalismo moderno,e que certamente defendeu uma doutrina no qual afirmava que a riqueza e prosperidade eram sinais da benção de Deus, enquanto que pobreza demonstrava uma possível falta de salvação.
Na primeira vez que escutei tal coisa, proferida por um professor de história de uma escola no qual estudei, fiquei um tanto chocado(assim também quando ouvi a história de Lutero sendo retratado como um assassino brutal por ter apoiado a nobreza contra os camponeses indefesos).
Todavia, ao estudar melhor Calvino, tanto em um colégio calvinista quanto leituras sobre sua história, inclusive seculares, pude notar realmente quem ele era e o que pregou.
Boa parte do pensamento moderno sobre Calvino deriva-se de historiadores marxistas e principalmente de um dos pais da sociologia moderna: O alemão Max Weber.
Weber defendeu em sua tese que os países protestantes, como Estados Unidos, Alemanha, entre outros, haviam tido, graças a ética protestante, uma elevação em sua prosperidade econômica.
Com base nisso, muitos vêem Calvino como um precursor da teologia da prosperidade, e parece que os próprios escritos de Calvino apontavam para essa conclusão. Até revistas consideradas cristãs parecem concordar com essa afirmação, uma delas, lançada recentemente, apesar de mostrar que não foi essencialmente por causa do protestantismo que as nações emergiram, mostra que a doutrina protestante influenciou bastante as nações que o adotaram e cita uma frase de Calvino: Deus chama cada um para uma vocação cujo objetivo é a glorificação de Deus. O pobre é suspeito de preguiça, a qual é uma injúria para com Deus”. Apesar de alguns testemunhos de historiadores, veículos de comunicação e do próprio Calvino parecerem confirmar esta tese, tal doutrina está bastante afastada da verdade.
Infelizmente a visão passada milhares de estudantes do ensino médio é de orientação Marxista, que vê a reforma como um movimento principalmente econômico, ao invés de religiosos, algo que claramente é refutado nos escritos do próprios reformadores. Outro problema é este ensino estar baseado principalmente na tese de Max Weber, que apesar de ter informações importantes, fora extremamente seletivo em suas afirmações. O que Calvino (assim como os puritanos) discordavam era com aqueles que afirmavam que o dinheiro era mau em si, e que a pobreza era uma virtude importante, superior a riqueza. Calvino e os puritanos discordavam dessa idéia, e afirmaram que as riquezas são dons de Deus, que devem ser usadas para sua Glória e servem para ajudar os outros, porém em nenhum momento Calvino sugeriu que o dinheiro fosse garantia de eleição, santificação ou mérito humano, mas pelo contrário, eram apenas graça de Deus que deveria ser usada para a Sua glória. Em um comentário sobre o salmo 127,2, ele escreveu: “Salomão afirma que nem a viver de baixo custo, nem diligência nos negócios irão por si só beneficiar em nada.” em outra parte, afirmou: “ Devemos reconhecer isto como um princípio geral,que as riquezas não chegam aos homens através de suas virtudes, nem sabedoria, nem luta mas apenas pela bênção de Deus”.
Calvino criticava não a pobreza em si, mas aqueles que, usando a pobreza como desculpa, não trabalhavam. Para que isso seja comprovado, basta observar que Calvino não morreu com bens preciosos nem em uma rica mansão, mas também com uma pobreza considerável.
Sem dúvida está incorreta a visão de que Calvino houvesse favorecido os ricos em detrimento dos pobres( uma espécie de Robin Hood as avessas), mas sim que ele valorizou o trabalho( tanto sagrado como “secular”) e também o dinheiro em si como algo bom para a Glória de Deus e para o bem do próximo. É necessário que professores cristãos mostrem verdadeiramente as concepções e motivos da reforma protestante, e em especial, busquem revelar quem realmente foi João Calvino, um dos maiores reformadores que já existiu.
Soli Deo Gloria

Referências:

RYKEN, Leland. Santos No Mundo: Os Puritanos Como Realmente Eram. São Paulo: Fiel, 1992.

6 comentários:

Gutierres Siqueira, 18 anos disse...

Parabéns Victor por abordar essa importante questão. O que Calvino fez foi mostrar que o serviço e o trabalho é uma vocação divina. Calvino quebra com o dualismo platônico que influenciou o pensamento patrístico, em especial o de Santo Agostinho, de separar a vocação do trabalho dito secular. O que calvino fez foi restabelecer o pensamento judaico-cristão sobre o trabalho.

Gutierres Siqueira
www.teologiapentecostal.blogspot.com

Victor Leonardo Barbosa disse...

Obrigado pelo apoio imrão Gutierres, realmente muitos têm essa visão defeituosa de Calvino, que na verdade se baseia em Max Weber.
Muito do que se tem hoje no protestantismo se deve a João calvino, ou melhor, a Deus através dele.

Abraços...

Pr. Carlos Roberto disse...

Caro Vítor Leonardo!
Parabéns pelo seu artigo, pautado em uma visão crítica, porém, sem preconceitos, analisando também o que há de bom em cada corrente de pensamento.
Estou aprendendo muito com o GQL

Victor Leonardo Barbosa disse...

Olá Pastor Carlos!!! Ibrigado pelo apoio e incentivo, que bom que estamos fazendo de maneira eficiente o serviço cristão, mas saiba que estamos aprendendo bastante com o point Rhema, que Deus lhe abençoe grandemente!!!

Abraços e Paz do Senhor!!!

Louise Lacerda disse...

Muito esclarecedor. Eu mesma havia adquirido uma visão preconceituosa de Calvino através das aulas de história. Mais um alerta de quec temos que criar uma visão mais crítica sobre oq nos é ensinado como "ciência".

Nilton Rodolfo Rodrigues disse...

Obrigado por sua participação, Louise. Que Deus a abençoe!